Espaço de cumplicidade: a representação da figura materna na literatura brasileira contemporânea* Regina Dalcastagnè Universidade de Brasília A relação, nunca desprovida de conflitos, entre mãe e filho costuma ser mediada por sentimentos pouco definidos. Sentimentos que, uma vez consolidados, podem se transformar em obrigações, tão mais prementes quanto mais vagas elas se apresentarem. E é nesse caldeirão que se requentam os ressentimentos, as culpas, as frustrações de lado a lado. Este trabalho pretende lançar um olhar abrangente sobre esse processo, observando os movimentos e transformações da figura materna no Brasil dos últimos 30 anos a partir de sua representação literária. Não será uma análise sociológica, tampouco qualquer espécie de estudo ou levantamento histórico da evolução do papel da mãe na sociedade brasileira. A proposta é simplesmente observar quais aspectos - e em que contextos - da relação mãe/filho parecem ter sido privilegiados pelos escritores brasileiros contemporâneos. E por quê. Uma vez que esta análise não tem a intenção de ser exaustiva - seriam centenas de livros a serem estudados, afinal, mães costumam freqüentar todo tipo de história o corpus foi limitado a cinco contos, onde a mãe exerce função primordial: “Menina” (1961), de Ivan Ângelo; “Meninão do Caixote” (1963), de João Antônio; “Mãe” (1977), de Domingos Pellegrini Jr.; “Cumplicidade” (1989), de Victor Giudice; e “Uma branca sombra pálida” (1995), de Lygia Fagundes Telles. Esse recorte, arbitrário como todo recorte, é, no entanto, representativo (como os autores escolhidos são representativos também dentro do campo literário brasileiro). Nesses contos, a figura da mãe não aparece diluída entre as outras personagens, e tampouco sua importância diminui diante das demais relações ou linhas narrativas da obra (principalmente quando se pensa num romance). Uma ressalva, sobre o modo de entender a relação entre literatura e sociedade, se faz necessária. Não vamos, aqui, historiar essa longa polêmica. Bastam algumas colocações. O narrador de O vermelho e o negro dizia que um romance era um espelho sendo carregado por uma estrada: “ora ele reflete para Versão anterior deste artigo foi apresentada no 7° Seminário Nacional “Mulher e Literatura”, realizado em Nitéroi (RJ), em setembro de 1997, e no Colóquio Internacional “La Mujer Latinoamericana y su Cultura en los Umbrales del Próximo Milenio”, realizado em La Habana (Cuba), em fevereiro de 1998.