ARTISTAS EM REDE OU ARTISTAS SEM REDE? Reflexões sobre o teatro em Portugal Vera Borges Resumo Neste artigo apresentam-se algumas pistas de análise para o estudo das trajectórias individuais da carreira dos artistas e dos destinos colectivos da actividade profissional nos grupos, companhias e projectos de teatro. O objectivo é fazer uma leitura preliminar das características do mundo do teatro em Portugal, focando dois aspectos centrais: por um lado, os artistas, profissionais em rede, aprendem a gerir a diversidade de experiências e as incertezas de uma profissão sem rede; por outro, os grupos de teatro, preferencialmente de pequenas dimensões, funcionam como “placas giratórias” e “viveiros de artistas” em regime de polivalência profissional. Palavras-chave Carreira, rede, mercado. Para uma investigação sobre o teatro Este artigo surge no âmbito de uma investigação sobre o teatro em Portugal: os ar- tistas e a sua actividade profissional nos grupos de teatro. O artigo foi concebido durante uma fase particular da pesquisa — estadia nos grupos, realização do in- quérito e recolha das entrevistas — e articula pistas de análise do quadro teórico e da pesquisa no terreno. 1 Neste sentido, o trabalho no interior dos grupos de teatro e a necessidade de compreender as trajectórias de profissionalização dos artistas fomentaram a reali- zação de um painel de entrevistas, com contornos temáticos e biográficos. Além disso, a intenção de realizar uma cartografia dos grupos, companhias e projectos de teatro profissionais tornou premente a utilização de outro suporte me- todológico, o inquérito. Tal como foi construído, o inquérito teve em conta a carac- terização dos grupos de teatro, a gestão dos seus membros e equipas, a sua activi- dade artística e o seu funcionamento interno. Administrado pessoalmente pela investigadora, este inquérito foi realizado junto dos grupos de teatro, reconhecidos pelas instituições culturais, emergentes durante a permanência da investigadora no terreno e sugeridos pelas outras estru- turas teatrais inquiridas, sob o efeito bola de neve. SOCIOLOGIA, PROBLEMAS E PRÁTICAS, n.º 40, 2002, pp. 87-106