RECENSÕES | 137 Zakaria, R. (2021). Against white feminism: notes on disruption. WW Norton & Company. https://doi.org/10.14195/2183-5462_43_7 Camila Lamartine Instituto de Comunicação da NOVA, Universidade NOVA de Lisboa, Portugal camilalamartinemb@gmail.com Submetido: 2023-07-18 | Aceite: 2023-09-01 Submitted: 2023-07-18 | Accepted: 2023-09-01 A academia tem assistido à intensificação de investigações à luz da interseccio- nalidade (Cresnshaw, 2017). Seja em vertentes teóricas ou metodológicas, a intersec- cionalidade tem vindo a consolidar-se como um fundamento nas práticas vinculativas à mudança social. Advinda do movimento negro, a interseccionalidade intenta reve- lar camadas de opressões que intersectam as diversas representações identitárias, como género, classe e, especialmente, raça. É nesta perspetiva que Zakaria posicio- na o pensamento feminista negro e marrom na dianteira do movimento feminista. Contudo, a crítica em torno da branquitude nos movimentos sociais não é algo novo, sobretudo no cerne do movimento feminista, onde esses questionamentos não partem de mulheres brancas que, na maioria das vezes, pertencem a um nexo normativamente etnocêntrico e ainda eurocêntrico (hooks, 2015). O reconhecimen- to do privilégio atrelado à cor da pele é um movimento difícil, já que a branquitude se faz invisível somente àqueles que a habitam (Ahmed, 2007). Nesta senda, Rafia Zakaria, advogada, colunista e investigadora académica da Escola de Liderança Cívica e Global Colin Powell no City College de New York, elabora uma imperiosa reflexão acerca do poder da branquitude no seu livro, Against white feminism: notes on disruption, publicado pela W.W. Norton & Company. Ao longo de 256 páginas distribuídas por oito capítulos, a escritora paquistane- sa convida-nos a refletir sobre a distinção entre ser uma mulher branca feminista e uma feminista branca, sendo esta última caracterizada por aceitar os “benefícios conferidos pela supremacia branca às custas de pessoas de cor, enquanto reivindica o apoio a igualdade dos géneros e a solidariedade entre ‘todas’ as mulheres” (p. 11). É logo na introdução, intitulada “At a Wine Bar, a Group of Feminists”, que Zakaria sublinha o seu lugar de fala (Ribeiro, 2017). Desde a sua infância no Paquistão até a fase adulta nos Estados Unidos, a autora nos exemplifica como, nos moldes da narrativa baseada apenas em género, as mulheres brancas se intitularam universais, desprezando outras vivências e saberes, culminando num apagamento político de mulheres de cor numa “falsa aparência de engajamento” (p. 29). O primeiro capítulo traça um linear histórico do feminismo a fim de evidenciar a presença exclusiva de mulheres brancas na construção do movimento, numa denún- cia às práticas coloniais que inferiorizavam as mulheres do Ocidente e suas culturas. Como refere Zakaria, as sufragistas em Inglaterra não quiseram aliar-se às mulhe-