TEORIA E CULTURA Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais - UFJF v. 19 n. 1 Setembro. 2024 ISSN 2318-101x (on-line) ISSN 1809-5968 (print) 19 Tramas da vida e maquinaria punitiva: vidas enredadas nas malhas da justiça criminal Ada Rizia Barbosa de Carvalho 1 Ana Clara Klink 2 Ananda Endo 3 Flavia Saviani 4 Paula Pagliari Braud 5 Vera da Silva Telles 6 Resumo: Este artigo trata dos percursos de homens e mulheres que passaram pela prisão e que têm suas vidas afetadas por dispositivos de controle nos meandros da expansiva informalidade urbana. Vidas enredadas nas malhas da justiça criminal, esses percursos permitem entender os modos operatórios da gestão dos ilegalismos populares. E também iluminam aspectos pouco ou nada trabalhados nas pesquisas sobre os efeitos societários do encarceramento em massa. Trata-se de uma maquinaria punitiva que, entre multas, cautelares, mandados, intimações, processos em an- damento, se enreda e se compõe com as tramas da vida em percursos afetados por desconcertos, temores, incertezas, também alimentados pela ilegibilidade das decisões, das leis, das normativas que circulam entre os indecifráveis labirintos judiciais, os tribunais, as delegacias e “os corpos dispersos da polícia”, tudo isso se constelando no que Veena Das define como “textura do cotidiano”. Os casos aqui apresentados nos permitem deslindar (i) as tramas da vida tecidas nas “malhas do poder punitivo”; (ii) os sentidos do que definimos como “maquinaria punitiva”; (ii) as “liberdades precárias” inscritas na gestão dos ilegalismos próprios do universo da informalidade urbana; (iii) a im- portância das redes sociotécnicas de apoio que se constituem em torno de alguns desses (e outros) casos. Palavras-chave: histórias minúsculas”, maquinaria punitiva, gestão de ilegalismos populares, tramas da vida, re- des de apoio Life plots and punitive machinery: lives entangled in the meshes of criminal justice Abstract: This article deals with the journeys of men and women who have been imprisoned and whose lives are affected by control devices in the intricacies of expansive urban informality. Lives entangled in the net- works of criminal justice, these paths allow us to understand the operational methods of managing popu- lar illegalism. And they also illuminate aspects that have been insufficiently researched or not studied in researches about the societal effects of mass incarceration. It is a punitive machinery that, between fines, precautionary measures, warrants, subpoenas, ongoing processes, is entangled and composed with the plots of life in paths affected by disconcerts, fears, uncertainties, also fueled by the illegibility of deci- sions, laws, the regulations that circulate between the indecipherable judicial labyrinths, the courts, the police stations and “the dispersed body of the police”, all of this constellations in what Veena Das defines as “textures of ordinary”. The cases presented here allow us to unravel (i) the webs of life woven into the “mesh of punitive power”; (ii) the meanings of what we define as “punitive machinery”; (ii) the “precar- ious freedoms” embedded in the management of illegalities typical of the universe of urban informality; (iii) the importance of the socio-technical support networks that are formed around some of these (and other) cases. Keywords: “minuscules histories”, punitive machinery, management of popular illegalisms, life plots, support networks, life plots 1 Doutoranda em sociologia pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora dos grupos de pesquisa Cidade e Trabalho e Mobilidades: Teorias, temas e métodos 2 Mestre em Antropologia Social e graduada em Direito pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Cidade e Tra- balho e do Núcleo de Antropologia do Direito. 3 Advogada e mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora do Grupo Cidade e Trabalho 4 Bacharel em Relações Internacionais e Letras, mestranda em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Pesquisadora do Grupo Cidade e Trabalho. 5 Advogada e mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo Pesquisadora do grupo Cidade e Trabalho. 6 Professora livre-docente sênior do Departamento de Sociologia da USP. Coordenadora do Grupo de Pesquisa Cidade e Trabalho (PPGS- -USP)