1 O PARALELO ENTRE A PINTURA E A MÚSICA NO PENSAMENTO E NA OBRA DE PAUL KLEE Arthur Valle 1 Mesmo na mais ligeira análise da obra pictórica e gráfica do artista plástico suíço Paul Klee (1879-1940) é praticamente impossível não se dar conta da sua estreita vizinhança com o mundo da música: confirmam isso a presença, no título de dezenas de seus trabalhos, de termos usualmente empregados na escrita e na teoria musical (fermata, polifonia, fuga, etc.), bem como as constantes referências a instrumentos, a compositores ou a personagens e temas de óperas ou balés. Como decorrência quase natural desse fato, a relação entre a obra de Klee e a arte da música desde muito constitui um tópico comum entre os analistas que abordaram o artista, como evidencia a lista parcial de livros e artigos que apresentamos na pequena bibliografia ao final do presente texto. Não obstante, pela sua própria riqueza e diversidade, a trama tecida entre pintura e música por Klee - tanto em sua obra propriamente dita, quanto também, cumpre frisar, em seus abundantes escritos -, ainda guarda aspectos pouco estudados. Aqui, nos propomos justamente considerar algumas questões inauditas a respeito do tema que dá título ao nosso trabalho, bem como revisar outras um tanto mais conhecidas. É notório o fato de que Klee, nascido em uma família de músicos 2 , se definiu apenas tardia e hesitantemente como pintor: durante toda a sua infância e juventude, ele ficou dividido entre a prática das artes plásticas, da música e, em menor medida, da literatura. Desde os sete anos, favorecido pelo ambiente da casa, Klee desenvolveu um talento notável como violinista, que o capacitou a participar de concertos sinfônicos, inclusive como solista, notadamente na orquestra municipal de sua cidade natal, Berna. Apenas por volta de 1901, data de sua primeira viagem à Itália, Klee teria “dito resolutamente adeus à literatura, à música” (BOULEZ, 1989: 13); todavia, a intuição de que laços profundos, verdadeiramente “cósmicos” - para usar um termo caro ao pintor - ligavam pintura e música, alimentada pela sua vivência artística multiforme, nunca o abandonaria, vindo a se manifestar mesmo em seus trabalhos tardios. Uma entrada de seu diário datada de 1906 ilustra bem o pensamento de Klee a respeito da questão: “Cada vez mais, sou forçado a enxergar paralelos entre a música e as arte plásticas 1 Fundação de Apoio à Escola Técnica – Instituto Normal Superior / RJ 2 Seu pai, Hans Klee, ensinava música em uma escola próxima a Berna e sua mãe, Ida Marie Klee-Frick, era uma cantora. Essa relação “familiar” de Paul Klee com a música, eventualmente, se perpetuaria: em 1899, o artista conheceu, na cidade de Munique, a pianista Lily Stumpf, que veio a se tornar a sua esposa, em 1906.