Lugar de massacre, de José Martins Garcia, e Terra sonâmbula, de Mia Couto: olhares convergentes sobre o autoritarismo 1 Evelise de Oliveira Bolzan 2 Inara de Oliveira Rodrigues 3 RESUMO Com a falência do projeto lusitano de expansão territorial ultramarina, decorrente das lutas de independência de nações africanas, como Moçambique e Guiné, e a subseqüente derrocada do regime fascista português, em 1974, estabeleceu-se uma literatura de cunho testemunhal, documental e revelador das condições de vida das nações colonizadas. A temática de maior enfoque nesses textos literários é a guerra e suas diversas implicações, como as mais variadas formas de violência sobre os indivíduos. Assim, por meio da análise das obras Lugar de Massacre (1975), de José Martins Garcia, e Terra Sonâmbula (1992), de Mia Couto, busca- se desvelar a maneira como ambos os escritores, de nacionalidade açoriana e moçambicana, respectivamente, representam essa temática, evidenciando-se os distanciamentos, mas, sobretudo, as convergências entre os seus romances. Tal procedimento analítico é desenvolvido a partir, principalmente, de algumas das principais concepções dos teóricos da Escola de Frankfurt sobre as relações entre a história e ficção, bem como sobre o conceito de autoritarismo, problematizando-se a dimensão social e crítica da arte literária. PALAVRAS-CHAVE: Literatura - autoritarismo - pós-colonial INTRODUÇÃO A preocupação e o interesse por questões relativas à arte literária engajada4 consistem no ponto inicial para a execução desta pesquisa, cujo objetivo central é enfatizar a correlação entre literatura, autoritarismo e história. Para tanto vai-se analisar as relações entre o regime autoritário português e a sua representação nas obras literárias, Lugar de Massacre, de José Martins Garcia, e Terra Sonâmbula, de Mia Couto, romances em que se apresentam fatos históricos reveladores do autoritarismo decorrente da política colonialista lusitana na África. Ao passar a vigorar como regime político em Portugal, por meio de um golpe de Estado, o fascismo, tendo Salazar como seu maior representante, transformou Portugal em um dos países mais subdesenvolvidos da Europa, alicerçado sobre a colonização africana. Dentro desse contexto, focaliza-se, aqui, por meio das obras explicitadas, duas nações atingidas por este sistema de exploração, Guiné e Moçambique, respectivamente, as quais só chegaram à independência nos anos 70, mas cuja soberania é um processo que se desdobra ainda hoje, devido aos resquícios que as guerras deixaram. Busca-se, assim, caracterizar a representação do autoritarismo nos romances que são corpus desta pesquisa, a partir de abordagens relativas à violência física, social e psicológica, à miséria, à morte, ao racismo e à percepção do mundo dos principais personagens das já referidas obras, articulando-se tal caracterização com os fatos históricos nelas explicitados. Deve-se evidenciar que a seleção do corpus da presente proposta de análise levou em conta, principalmente, o fato de que essas narrativas dos escritores José Martins Garcia, açoriano, e Mia Couto, moçambicano, foram publicadas justamente após os anos subseqüentes à derrocada do regime salazarista em Portugal, em 1974, e à falência do projeto de expansão territorial ultramarina. Com um caráter testemunhal e crítico, tais romances abordam, em comum, um tema que, até então, era interditado pela censura. A temática central eram as lutas pela independência e suas implicações, representando as vivências traumáticas que foram impostas aos seus participantes. Torna-se relevante, desse modo, apontar o olhar convergente desses 1 Desenvolvimento do Projeto Final de Graduação. 2 Acadêmica do Curso de Letras - Português / Inglês do Centro Universitário Franciscano. 3 Professora Doutora do Centro Universitário Franciscano.