IPOTESI, JUIZ DE FORA, v. 24, n. 2, p. 91-107, jul./dez. 2020 – ISSN 1982-0836 91 POÉTICAS VISUAIS DA AFRICANIDADE TRANSCONTINENTAL: AFRO- AMÉRICA EM FOCO Jânderson Albino Coswosk * Maria Aparecida Andrade Salgueiro * RESUMO: O artigo apresenta diferentes apropriações e representações da Afro-América contemporânea e do corpo negro feminino, com base nos ensaios fotográficos White Shoes (2012, ainda em construção) e My Country (2016-2019), da fotógrafa e artista visual afro-americana Nona Faustine (1977-). Investiga-se o modo que tais objetos se convertem em narrativas que promovem uma recuperação emancipatória do legado afro-americano, ao instigarem leituras alternativas da africanidade diaspórica para além da raça e do escravismo. Palavras-chave: Poéticas visuais. Afro-América e africanidade transcontinental. Corpo negro feminino. Narrativas fotográficas e memória. Literaturas de língua inglesa. Negras imagens, fluxos e refluxos Não é novidade dizer que a proliferação de suportes fílmicos, fotográficos e plásticos oriundos da Afro-América nunca esteve tão latente quanto na virada do século XX para o XXI, momento em que artistas afro-americanos estão ocupando museus, galerias e espaços acadêmicos antes dedicados estritamente àqueles do panteão ocidental canônico, ou, quando por eles acolhidos, tinham suas produções muitas vezes qualificadas como “menores”, exóticas ou “não-arte”. Em quase duas décadas vencidas deste século e em uma escala maior que seus antecessores, pintores, escultores, fotógrafos e artistas visuais afro-americanos contemporâneos puderam estabelecer uma maior comunicabilidade entre suas produções e uma audiência de expressiva dimensão transnacional. Tais objetos fazem parte de um tecido mais amplo e complexo de construção das visualidades da africanidade, e vêm rasurando há muito tempo fronteiras geográficas, epistemológicas e modos de representar a herança matricial africana na diáspora com a ação colonial, com a recepção de imigrantes africanos negros nos Estados Unidos e com a saída de afro-americanos para outros espaços continentais, como tem ocorrido desde o início do século XX. Isto se deve à velocidade assustadora em que se formam circuitos imagéticos que veiculam esculturas, aquarelas, fotografias em exposições, bem como a atuação dos artistas em tempo real por streaming, provocando contatos, descentralizações, identificações ou divergências na recepção dessa produção, que hoje em dia, não precisa estar necessariamente em viagem para alcançar um público além-mar. Talvez o que soa como uma novidade, especialmente para nós, pesquisadores do campo das literaturas africanas e afrodiaspóricas, é contemplar esses suportes artísticos que nos chegam em exposições ou em redes virtuais como um horizonte alternativo e pujante de leitura * Doutorando em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor do Instituto Federal do Espírito Santo – Ifes – Campus de Alegre. Suas investigações têm se ocupado da obra do escritor afro-americano James Baldwin e seus diálogos contemporâneos com a cultura visual. Seu artigo mais recente, “Body, ancestry, and ecstasy: reading Rotimi Fani-Kayode’s photographs in contemporary times”, foi publicado pela VISTA – Revista de Cultura Visual (Lisboa, Portugal), em 2020. E-mail: jandersoncoswosk@gmail.com * Professora Titular UERJ. Pós-Doutora UCL, Londres. Pesquisadora: CNPq; Cientista do Nosso Estado/FAPERJ; Procientista. Líder Grupo Pesquisa/CNPq. Autora, no Brasil e no exterior, de artigos, capítulos de livros e obras, sendo a mais conhecida, Escritoras Negras Contemporâneas - Estudo de Narrativas: Estados Unidos e Brasil (Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2004). Co-organizadora de Literaturas de Língua Inglesa: leituras interdisciplinares - Volume III (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2018). E-mail: cidasal3@gmail.com