Cinema, política e história: A chinesa (1967) de Jean-Luc Godard e a recepção da crítica no Brasil. LUIZ OCTAVIO GRACINI ANCONA * Desde o início de sua carreira, Jean-Luc Godard se mostrou um cineasta preocupado em tratar de temas polêmicos da política francesa. Já em seu segundo longa-metragem, O pequeno soldado, de 1960, o cineasta abordou a Guerra da Argélia, em um momento no qual esta era uma questão particularmente explosiva na sociedade francesa. Tal preocupação se intensificou, tornando-se mais sistemática, a partir de 1966, quando os filmes do cineasta assumiram um tom claramente político e de inclinação marxista. No final de 1966, quando o maoísmo era um “tema da moda” entre a juventude francesa, Godard concebeu A chinesa, um filme sobre cinco jovens que se reúnem em um apartamento burguês durante as férias de verão com o intuito de formar uma célula de atuação maoísta. Naquele momento, algumas centenas de jovens franceses organizavam o coletivo maoísta Union de la jeunesse comuniste. O tema se tornava cada vez mais frequente na imprensa francesa, e o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung se convertia em um surpreendente sucesso editorial, um verdadeiro best-seller nas livrarias de Paris (BAECQUE, 2010:351-352). A chinesa foi filmado em março de 1967, enquanto o próprio Godard se aproximava da militância maoísta. Segundo o cineasta, sua intenção era criar uma reportagem sobre a agitação da juventude revolucionária daquele momento (BAECQUE, 2010:351). No filme, Godard “tudo registra como um etnógrafo” (DANTAS, 2015:132), deixa que seus jovens militantes falem por si e denunciem o vazio e o dogmatismo de seus próprios discursos políticos inflamados. Dessa forma, A chinesa expõe a desconexão com a realidade político-social e a inconsequência pueril do marxismo de veraneio dos jovens; assim como denuncia a desunião de classes no interior do coletivo a única personagem de origem humilde e camponesa tornou- se a copeira do apartamento. Assim, após sua estreia comercial nos cinemas franceses em * Mestrando em História Social pela FFLCH-USP e bolsista da FAPESP.