106 Fascismo. Um risco real para o mundo de hoje? JOÃO FÁBIO BERTONHA * “O espectro do fascismo ronda a Europa”. Uma leitura da realidade europeia de hoje a partir da mídia escrita e televisiva mundiais poderia facilmente levar a essa impressão. Reportagens sobre agressões a imigrantes e outras minorias nas ruas de Berlim ou Paris, filmes e documentários sobre os neonazistas (normalmente com ênfase nas mensagens de ódio, na violência e na estética fascista) e outros meios midiáticos são realmente comuns e poderiam levar à conclusão de que o fascismo pode estar voltando à cena na Europa e no mundo. A atual crise econômica europeia e as menções a grupos como o “Aurora Dourada” grego têm apenas reforçado essa impressão geral. Na Europa (e no conjunto do mundo ocidental), existe hoje, com certeza, uma cultura originária do fascismo clássico, aqueles dos anos 1920 e 1930, e que se conecta diretamente a este, na simbologia, nos apelos históricos, etc. No entanto, os grupos de extrema- direita são pouco relevantes em termos políticos e sua influência nas sociedades europeias e ocidentais é muito limitada. O fascismo, na sua versão clássica dos anos 30 – recusa do sistema liberal democrático em favor de uma ditadura corporativa e de partido único, práticas sistemáticas de repressão (ou mesmo extermínio) às minorias e dissidentes, anticomunismo e mobilização das massas ao redor de um partido, uma ideologia e um líder – é um fantasma que não ameaça mais a Europa e nem o mundo. Encontrar os neonazistas nas ruas ou nas redes sociais é algo desagradável e até perigoso, mas não creio que, em termos práticos, eles tenham chance de influenciar novamente os destinos do mundo ocidental. Dizer que o fascismo não é mais um risco para a democracia ocidental, contudo, não significa dizer que os elementos da cultura da direita que o formataram tenham desaparecido. Uma nova combinação desses elementos no modelo clássico é improvável, mas eles podem ser recuperados em um novo formato e/ou influenciarem o Estado e os governantes no poder sem necessariamente convertê-los em fascistas. Podemos perceber essa recombinação de elementos no cenário atual. A democracia representativa se torna cada vez mais uma estrutura dominada pelo poder do dinheiro e pela mídia, como indicam os casos de Berlusconi na Itália ou o escândalo de escutas telefônicas na Grã-Bretanha. A liberdade de expressão, nesse contexto, tem sido questionada – de forma sutil e indireta, na maior parte das vezes – em países como a Rússia, a Hungria e outros. Ao mesmo tempo, impossível não recordar que a própria democracia, quando não atinge os resultados esperados pelo “sistema”, pode ser suspensa ao menos