Rev Bras Ortop _ Vol. 32, Nº 2 – Fevereiro, 1997 103 PERSPECTIVAS DE RECUPERAÇÃO DO LESADO MEDULAR Perspectivas de recuperação do lesado medular AMIR S. GEBRIN 1 , ARMANDO S. CUNHA 1 , CIRO F. DA-SILVA 2 , TARCÍSIO E.P. BARROS FILHO 3 , RONALDO J. AZZE 3 1. Graduando de Medicina da FMUSP. 2. Prof. Assoc.; Chefe do Lab. de Neurobiol. do Dep. de Histol. e Embriol. do Inst. de Ciências Biomédicas, USP. 3. Prof. Livre-Docente; Diretor do Serv. de Coluna Vertebral, IOT-HC- FMUSP. 4. Prof. Titular do Dep. de Ortop. e Traumatol., FMUSP. RESUMO Ao contrário da grande capacidade de regeneração ob- servada em nervos periféricos, a do tecido nervoso cen- tral adulto é mínima após trauma. Apesar dos rearranjos sinápticos subseqüentes ao trauma, lesões medulares re- sultam em déficits permanentes. Intervenções no micro- ambiente neuronal são necessárias para promover rege- neração e proteção de neurônios medulares lesados. Unitermos – Medula espinal; trauma; regeneração; tratamento; pesquisa SUMMARY Prospects for recovery of the spinal cord-injured In contrast to the highly developed capacity for regenera- tion observed in peripheral nerves, the adult central nervous tissue shows very little regeneration after trauma. Spinal cord injuries result in permanent deficits in spite of synaptic re- modeling following lesion. Modifications of the neural mi- croenvironment are necessary to induce spinal cord neuronal protection and regeneration. Key words Spinal cord; injury; regeneration; treatment; re- search INTRODUÇÃO O grande desafio da neurologia em todos os tempos tem sido vencer a falta de regeneração espontânea do sistema nervoso central (SNC) adulto após a perda de neurônios e/ou a interrupção de seus prolongamentos, os axônios (14) . Embo- ra possa haver recuperação parcial dos sintomas, as melho- ras funcionais observadas após lesão cerebral ou medular são decorrentes de fenômenos de plasticidade sináptica e não de reparo estrutural (17,48,55) . A grande maioria dos esforços atuais, tanto científicos quanto clínicos, tem-se concentrado no de- senvolvimento e na aplicação de estratégias visando à limi- tação das conseqüências do dano ao SNC e a ampliação do potencial regenerativo dos neurônios lesados (13,22,33,50,77) . Ao contrário do que ocorre no SNC, o sistema nervoso periférico (SNP) apresenta elevada capacidade de regenera- ção após trauma (10,21,44,75) , de modo que lesões de nervos atual- mente não mais significam perda de função, desde que abor- dadas microcirurgicamente de maneira adequada (15,21,36,58,68) . Contudo, nenhuma abordagem satisfatória permite, até o mo- mento, reverter a colossal perda funcional dos vitimados pelo dano crônico da medula espinal, talvez por não serem co- nhecidos ainda seus mecanismos especiais de regeneração e preservação pós-lesional (19,28-30,34) . Neurônios são células que, no organismo adulto, não se dividem mais e, portanto, não podem ser substituídas após lesão de seus corpos celulares (10) . Seus axônios, porém, po- dem recuperar-se dentro de certos limites, desde que seus corpos celulares de origem não sejam atingidos pela lesão (17) e condições adequadas lhes sejam oferecidas (1,69) . Nos pro- cessos de compressão, secção ou esmagamento da medula espinal, por exemplo, o imenso déficit adquirido resulta da interrupção dos numerosos tratos (conjunto de fibras nervo- sas) que sobem e descem pelo seu interior, sendo secundária a deficiência decorrente da morte neuronal conseqüente ao trauma local. Contudo, os axônios atingidos pelo trauma não conseguem ultrapassar o foco da lesão, como o fazem axônios de nervos periféricos (10,15,20) . Nestes, os axônios do coto proximal cres- cem ativamente em busca do coto distal, ocupando os tubos endoneurais vazios, resultantes da degeneração de axônios que perderam o contato com seus corpos celulares (14,41,44) . Durante a regeneração, a extremidade do axônio proximal dilata-se pelo acúmulo de organelas citoplasmáticas (mito- côndrias, retículo endoplasmático liso, microtúbulos, etc.), formando os neuritos (prolongamentos que darão origem aos