Rev Bras Ortop _ Vol. 35, Nº 5 – Maio, 2000 143 TRATAMENTO MEDICAMENTOSO NO TRAUMATISMO RAQUIMEDULAR ARTIGO DE ATUALIZAÇÃO Tratamento medicamentoso no traumatismo raquimedular TARCISIO ELOY PESSOA DE BARROS FILHO 1 1. Professor Associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; Vice-Presidente da International Medical Society of Paraplegia. Copyright RBO2000 A idéia de centros especializados, com participação multiprofissional e multidisciplinar, passou a ser adotada em várias partes do mundo, levando à diminuição da mor- talidade destes pacientes e progressivamente a um melhor conhecimento de toda a gama de alterações decorrentes da lesão medular. Uma nova era se iniciou no tratamento do traumatismo raquimedular e alguns profissionais da área médica passa- ram e se dedicar exclusivamente a esta esfera de atividade. O progredir do conhecimento da fisiopatologia envolvi- da na lesão medular, o conhecimento mais adequado da circulação sanguínea intrínseca da medula e a melhoria das técnicas cirúrgicas, da segurança anestésica e dos instru- mentais de estabilização da coluna vertebral propiciaram que praticamente no final da década de 70 e início da déca- da de 80 fosse estabelecido um protocolo mais adequado de tratamento cirúrgico nestes casos: – Descompressão do canal vertebral o mais rapidamen- te possível para possibilitar melhor chance de recuperação neurológica, como demonstrado no clássico trabalho de Bohlman em 1979 (4) ; – Estabilização rígida da coluna vertebral com instru- mentais que permitam a mobilização precoce dos pacien- tes, sem a necessidade de grandes aparelhos de imobiliza- ção externa. Sempre que possível a opção deve ser feita por materiais confeccionados em titânio, que permitem a realização de ressonância magnética no pós-operatório; – Programas de reabilitação iniciados precocemente, com atividades de fisioterapia motora e respiratória, ree- ducação de esfíncteres, acompanhamento psicológico vi- sando evitar as graves conseqüências decorrentes da lesão medular. Com este protocolo o prognóstico dos pacientes melho- rou, porém ainda pouco ou quase nada era feito em relação à lesão da medula propriamente dita. A observação clínica mostrava que a evolução das lesões do sistema nervoso central, representado pela medula espinal, era totalmente diferente da observada nas lesões do sistema nervoso peri- ABSTRACT Pharmacological management of spinal cord injury The author presents an update on pharmacological agents that could be employed in patients with spinal cord injury. Many experimental studies are under development over the world, but few effectively controlled trials are pub- lished in the literature or presented in international meet- ings. Ongoing clinical trials are currently being conduct- ed to evaluate methylprednisolone, tirilazad, ganglioside GM-1, and 4-aminopyridine. The clinical applications of each drug are presented. Key words – Spinal cord injury; pharmacological agents As dificuldades de tratamento dos pacientes com trau- matismos raquimedulares já são conhecidas há muito tem- po e, até há cerca de uma década, o conceito estabelecido há mais de 4.000 anos no papiro de Edwin Smith como “uma lesão para não ser tratada” ainda era considerado por muitos setores da medicina como verdadeiro (1) . No início do século XX, encontramos outra referência sobre pacientes com lesões da medula espinhal durante a Primeira Guerra Mundial. Cushing, cirurgião militar da época, relata que 80% dos pacientes vítimas de traumatis- mo raquimedular faleceram durante as primeiras duas se- manas após a lesão (2) . Por ocasião da Segunda Guerra Mundial começou a se vislumbrar uma mudança na forma de tratar estes pacien- tes. O desenvolvimento do conceito de centros especiali- zados no tratamento das vítimas de lesão medular foi in- troduzido por Guttmann com o Centro de Stoke Mandevil- le, em Aylesbury, na Inglaterra (3) .