THEODOR ADORNO E ERIC HOBSBAWM SOBRE O JAZZ Luis Carlos Fridman I 1 Universidade Federal Fluminense (UFF), Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil lcfridman@globo.com https://orcid.org/0000-0002-9730-4451 Em gravações de “Samba da minha terra”, Dorival Caymmi e João Gilberto canta- vam: “Quem não gosta do samba/Bom sujeito não é/É ruim da cabeça/Ou doente do pé”. Algo dessa ordem pode ser creditado ao prestígio mundial do jazz. Apesar de suas obras não ocuparem os primeiros lugares nas listas de vendagens e nas paradas de sucessos, músicos e intérpretes de diversos gêneros o consideram um domínio nobre da criação artística. No entanto, não foi essa a percepção de Theodor Adorno em sua severa crítica do jazz, associando-o à regressão auditiva e ao conformismo social. As objeções de Adorno não se pautaram apenas pela resistência ao som dançável das big bands que encantava as plateias e produzia frisson nos salões. O filósofo alemão ostentava sólida formação musical e ques- tionou a própria estrutura formal do jazz, considerado uma diluição da grande tradição da música clássica ou mesmo dos arrojos de vanguarda. Para ele, o gê- nero havia sido capturado pela indústria cultural por meio da “estandardização” e da padronização de trilhas e arranjos que satisfaziam o gosto estético ancora- do nos confortos do “mesmo”. O historiador Eric Hobsbawm, um aficionado do jazz, viu nele a música por excelência da sociedade industrial moderna e expres- são privilegiada de raízes culturais populares. Ao contrário de Adorno, os estu- dos e a vivência de Hobsbawm nos ambientes jazzísticos realçam a expansão das fronteiras da música popular e novas formas de “erudição”, dessa vez acessí- veis à massa dos subalternos. No cotejamento desses argumentos contrastantes, tentarei esmiuçar aspectos que revelam a importância do jazz como linguagem artística no quadro da cultura musical contemporânea. http://dx.doi.org/10.1590/2238-38752020v1027 sociol. antropol. | rio de janeiro, v.10.02: 493 – 512 , mai. – ago., 2020