1 Rita Baleiro (CiTUR, Universidade do Algarve) Comunicação apresentada na Tertúlia João de Araújo Correia, em outubro de 2023. O turismo literário: Definição e conceitos-satélite A grande obsessão do século XIX foi, como sabemos, a história: os temas do desenvolvimento e da interrupção, da crise e do ciclo, da ininterrupta acumulação do passado com o predomínio de homens mortos e a temível glaciação do mundo. [...] A época atual será talvez sobretudo a época do espaço. Nós estamos na época da simultaneidade: estamos na época da justaposição, a época do próximo e do distante, do lado a lado, do disperso. Estamos num momento, creio, no qual a nossa experiência do mundo se parece mais com uma rede na qual pontos se ligam e se cruzam com o próprio enredo do que com uma longa vida que se fortalece no tempo. Poder-se-ía, talvez, dizer que os conflitos ideológicos das polémicas contemporâneas confrontam os devotos descendentes do tempo e os convictos habitantes do espaço. (Foucault, [1967] 1986, p. 22. Tradução e itálicos meus) 1. Introdução Este texto é sobre turismo literário, um dos nichos do turismo cultural e patrimonial que ganhou maior ímpeto como objeto de investigação nas últimas décadas, no contexto da permeabilidade das ciências humanas e sociais a outras disciplinas. Falo concretamente da interseção com a geografia, pois é o espaço o elemento agregador do turismo e a literatura. O interesse académico pelo turismo literário pode ser entendido como uma consequência do fenómeno do spatial turn, ou seja, do diálogo interdisciplinar resultante da epistemologia da crítica pós-moderna que, na segunda metade do século XX, entende o espaço como um componente crucial na análise da experiência humana e da prática social (Soja, 1989; Lévy, 1999). A transdisciplinaridade já havia sido promovida pelo predecessor cultural turn (Tuan, [1978] 2014), que intensificara a ênfase na função simbólica da literatura, na imaginação e nas representações individuais e coletivas (também do espaço e dos lugares), como elementos-chave nos processos de construção do significado das experiências humanas e da dinâmica social (Cook et al., [2000] 2014). Associado a estes movimentos surge também o da geografia humanista (Pocock, 1981) que estuda as experiências subjetivas, significados e interpretações do espaço, ao explorar o modo como as pessoas percecionam, interagem e atribuem significado ao contexto cultural e social. Na sequência do cultural turn e do spatial turn, o geographical turn aumentou o interesse pela espacialidade e pela análise geográfica, e permitiu o diálogo emergente entre a geografia e a literatura operacionalizado sob diferentes designações e perspetivas. O geographical turn, também denominado de topographical turn ou cartographical turn (Brückner, 2016), amplificou a geografia literária (Collot, 2011), a cartografia literária (Moretti, 2000) e a geocrítica (Westphal, 2007): todos campos interdisciplinares implicados na investigação em literatura e turismo. O primeiro – o da geografia literária – analisa o contexto espacial da produção escrita. O segundo – o da cartografia literária – permite a visualização dos elementos espaciais dos textos literários por meio de mapas, diagramas ou outras representações visuais, o que contribui para expandir a compreensão dos cenários espaciais das obras literárias e para explorar as dimensões