1 e-ISSN nº 2447-4266 Palmas, v. 10, n. 1, 2024 http://dx.doi.org/10.20873/uft.2447-4266.2024v10n1a9pt 1 AUDIOVISUAL E EXTREMA DIREITA NO BRASIL AUDIOVISUALS AND FAR-RIGHT IN BRAZIL AUDIOVISUAL Y EXTREMA DERECHA EN BRASIL Karla Holanda Professora e pesquisadora do Departamento de Cinema e Vídeo e do Programa de Pós-graduação em Cinema e Audiovisual, da Universidade Federal Fluminense, é Pesquisadora Jovem Cientista do Nosso Estado/Faperj, e coordenadora do Grupo Documentário e Fronteiras. karlaholanda@id.uff.br 0000-0003-2753-7679 Recebido em: 01/04/2024 Aceito em: 01/09/2024 Publicado em: 30/11/2024 RESUMO: O Brasil dos últimos anos tem revelado ideias extravagantes, desde contestação de saberes científicos consagrados a pedidos de volta da ditadura e revisões históricas. Nessa “política da destruição”, o audiovisual tem se tornado importante difusor desses propósitos. Surgem, por exemplo, obras audiovisuais que buscam deslegitimar saberes constituídos ao longo de décadas. Este artigo discute antecedentes desse discurso no país, sintetiza algumas recorrências dele e observa com mais detalhe uma dessas obras, defendendo que conhecer estratégias e método da política fascista é urgente e será determinante para nosso futuro. PALAVRAS-CHAVE: Audiovisual; Extrema direita; Fascismo; Filme de propaganda. Introdução Nos últimos anos, a sociedade brasileira conviveu com ideias das mais extravagantes, desde contestação de saberes científicos consagrados a homenagens a torturadores, passando por muitas outras, como revisões históricas que defendem a monarquia e a ditadura civil-militar de 1964. No governo Bolsonaro (2019-2022), tivemos ministro do meio ambiente protegendo queimadas e desmatamentos ilegais, e fazendo vista grossa diante de contrabando de madeira, invasões de garimpeiros a terras indígenas e assassinatos desses povos (Macri, 2021); tivemos presidente da Fundação Palmares, instituição criada para promover a cultura negra, se referindo ao movimento negro como “deletério e maligno” (Fernandes, 2021); tivemos ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos dizendo que menino deve usar azul e menina deve usar rosa, além de sugerir o combate exploração sexual de crianças e adolescentes por meio de distribuição de calcinhas (Pains, 2019; Damares, 2019); tivemos vice-presidente do país afirmando categoricamente que “não existe racismo no Brasil” (Schuquel, 2022); e o próprio presidente disse, entre inúmeras barbaridades, que turistas estrangeiros que quiserem vir ao Brasil “fazer sexo com uma mulher”,