RELAÇÕES INTERNACIONAIS MARÇO : 2024 81 [ pp. 013-024 ] https://doi.org/10.23906/ri2024.81a02 O objetivo deste texto é analisar a reação do Governo dos Estados Unidos aos acontecimentos ocorridos em Portugal no dia 25 de abril de 1974, bem como nos dias subsequentes. O foco da atenção não estará, portanto, na totalidade do processo da transição política portu- guesa, mas sim num dia em concreto e nas suas conse- quências imediatas. Existiriam dois consensos acerca dos acontecimentos daquele dia. O primeiro seria o seu carácter de festa popu- lar e pacífica, sem vítimas. Para este consenso contribuem, sem dúvida, as imagens dos soldados misturados com a população e os cravos vermelhos nos canos das espingar- das. A imagem tem tal força que a revolta será para sem- pre conhecida como a Revolução dos Cravos. O segundo consenso estabelecer-se-ia em redor da sur- presa e ignorância prévia dos Estados Unidos em relação à revolta. Segundo Cord Meyer, o chefe de estação da Central Intelligence Agency (CIA) em Londres na altura: «Quando a revolução ocorreu em Portugal, os Estados Unidos tinham saído para almoçar; ficámos completa- mente surpreendidos» 1 . Em duas entrevistas para a Columbia University Oral History Collection, a 22 de feve- reiro e a 29 de março de 1975, Stuart Nash Scott, o embai- xador dos Estados Unidos em Lisboa em 1974, reitera a ideia de surpresa e não só para os Estados Unidos. Scott afirma que a atmosfera nas semanas anteriores indicava que algo podia acontecer, mas que ninguém foi capaz de prever os acontecimentos do 25 de Abril 2 . Certamente, O 25 DE ABRIL VISTO DE FORA Os Estados Unidos e o 25 de Abril de 1974 Víctor Gavín RESUMO O 25 de Abril de 1974 é uma data icónica não só para Portugal, mas também para a Europa e para o mundo. Qual foi a atitude de Washing- ton face a este acontecimento? A Casa Branca de Richard Nixon/Gerald Ford, e Henry Kissinger como secretário de Estado e conselheiro nacional de Segurança, encarnava um governo democrático que não hesitava em apoiar governos antidemocráticos para defender os seus interesses particula- res ou os interesses dos países ociden- tais na Guerra Fria. Este artigo visa analisar a atitude dos Estados Unidos face ao 25 de Abril e a sua posição perante um movimento que, no dia 29 de abril, Kissinger qualificou de «soberbamente organizado e bem dirigido». Palavras-chave: Stuart Nash Scott, Henry Kissinger, golpe, África. ABSTRACT The United States and the revolution of 25 April 1974 2 5 April 1974 is a symbolic date not only for Portugal but also for Europe and the world. How did Washington react to this event? The White House of Richard Nixon/Gerald >