198 IPOTESI, JUIZ DE FORA, v. 26, n. 1, p. 198-208, jan./jun. 2022 - ISSN 1982-0836 A IDENTIDADE CULTURAL DO SUJEITO DIASPÓRICO EM UM DEFEITO DE COR Gabriella Gargalhão Antunes * Shirley de Souza Gomes Carreira ** RESUMO: Os sujeitos diaspóricos passam por uma reconfiguração identitária resultante das trocas culturais. Tomando por base teorias sobre a identidade e, em particular, o conceito de identidade cultural, este estudo propõe a análise do romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, cuja protagonista é uma ex-escrava, que foi capturada ainda criança no Daomé e enviada ao Brasil. Esse romance pode ser considerado como uma neonarrativa de escravidão, conforme a definição de Ashraf Rushdy (1999), ou seja, uma narrativa contemporânea que adota algumas estratégias dos primeiros relatos de ex-escravos, mas traz à baila questões que repercutem no mundo hodierno. Palavras-chave: Identidade cultural. Diáspora africana. Neonarrativa de escravidão. Um defeito de cor. Em nós, até a cor é um defeito. Um imperdoável mal de nascença, o estigma de um crime. Mas nossos críticos se esquecem que essa cor é a origem da riqueza de milhares de ladrões que nos insultam; que essa cor convencional da escravidão, tão semelhante à da terra, abriga, sob sua superfície escura, vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade. Luiz Gama Introdução A identidade cultural é um sistema de representação das relações entre indivíduos e grupos que envolve o compartilhamento de patrimônios comuns, ou seja, de todos os elementos que constituem o que denominamos cultura. Segundo Moresco e Ribeiro ela envolve “as particularidades que um indivíduo ou grupo atribui a si pelo fato de sentir-se pertencente a uma cultura específica” (MORESCO; RIBEIRO, 2015, p. 170). Interessa-nos, entretanto, as transformações que ocorrem nas identidades mediante situações especificas, como, por exemplo, as diásporas e as migrações. Se considerarmos que há um intercâmbio entre a noção de local de origem e o território, um espaço definido e delimitado por e a partir de relações de poder, qualquer tipo de deslocamento, temporário ou definitivo, implica a ruptura de elos de pertencimento. Desterritorializar-se, mesmo que voluntariamente, implica romper com esse espaço histórico, relacional e identitário. Em uma entrevista, Deleuze (apud HAESBAERT; BRUCE, 2009, p.7) afirma que “não há território sem um vetor de saída do território, e não há saída do território, ou seja, desterritorialização, sem, ao mesmo tempo, um esforço para se reterritorializar em outra parte”. Esse processo de reterritorialização requer a interação e adaptação ao lugar que há de tornar-se o novo território. São os padrões de interação que asseguram ao indivíduo, como membro de um coletivo, certa estabilidade e localização. * Mestranda em Estudos Literários do Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística da UERJ; Faculdade de Formação de Professores; Departamento de Letras; São Gonçalo; Rio de Janeiro. Bolsista de Mestrado FAPERJ. E-mail: gabiscardin@gmail.com ** Doutora em Literatura Comparada; Professora Adjunta e Docente permanente do Mestrado em Estudos Literários do Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística da UERJ; Faculdade de Formação de Professores; Departamento de Letras; São Gonçalo; Rio de Janeiro. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq; Bolsista do Prociência UERJ/FAPERJ. Dentre suas últimas publicações constam: Poéticas da diversidade: estudos de literatura na contemporaneidade (Appris, 2021); A representação do sujeito diaspórico em O livro dos negros, de Lawrence Hill. Ilha do Desterro, v. 74, p. 385-404, 2021; Literatura e diversidade: estudos contemporâneos (FFP-UERJ, 2021). E-mail: shirleysgcarr@gmail.com