O CORPO SENSÍVEL NO CENTRO DE CUIABÁ/MT Relatos de um caminhar cartográfico THE SENSITIVE BODY IN CUIABÁ-MT CENTER reports of a cartographic walk Kellen Melo Dorileo Louzich 1 , Fernando Perinazzo Rambo 2 e Evandro Fiorin 3 Resumo A compreensão sensível da cidade pode ser possível na microescala, caminhando pelas ruas, vielas, em meio a sua arquitetura, fazendo despertar o olfato, provando comidas, tateando as fachadas, aguçando a audição frente à urbanização. Desta maneira, nesta experiência que propomos aqui, a modalidade de pesquisa do caminhar de Francesco Careri se alia ao método da cartografia, para construir sensibilidades de um fazer para saber mais sobre o centro da cidade de Cuiabá. Assim, nosso objetivo é trabalhar o caminhar como prática estética somado à cartografia subjetiva, com a finalidade de experienciar os espaços urbanos cuiabanos. De tal sorte, nos lançamos nos meandros do centro histórico de Cuiabá – uma cidade com mais de 300 anos, cheia de histórias –, vivenciada agora pelos relatos das experiências subjetivas que desvelamos por um caminhar cartográfico. Palavras-chave: centro histórico, corpo, caminhar, cartografia, Cuiabá. Abstract A sensitive understanding of the city can be possible at the microscale, walking through the streets, alleys, amid its architecture, awakening the sense of smell, tasting food, feeling the facades, sharpening the hearing in the face of urbanization. In this way, in this experience that we propose here, Francesco Careri’s walking research modality is allied to the cartography method, to build sensibilities of a doing to know more about the city center of Cuiabá. Thus, our objective is to work on walking as an aesthetic practice added to subjective cartography, in order to experience the urban spaces of Cuiaba. In such a way, we launched ourselves into the intricacies of the historic center of Cuiabá – a city with more than 300 years, full of stories –, now lived through the reports of subjective experiences that we unveil through a cartographic walk. Keywords: historic center, walking, cartography, Cuiabá. 1 Artista plástica, arquiteta e urbanista (Fau UFMT, 2018), mestre em arquitetura e urbanismo pelo Programas de Pós-Graduação PósArq (UFSC, 2021). Pesquisadora colaboradora do Laboratório tecnologia e Conforto Ambiental desde 2015 (LATECA-UFMT) e do Grupo de Pesquisa de Projeto, Patrimônio, Percepção e Paisagem (UFSC). 2 Estudante do 9º semestre da faculdade de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso (Fau UFMT). Pesquisador colaborador do Laboratório de fabricação digital (Lab.au/fablab) desde 2017, desta mesma universidade. 3 Arquiteto e urbanista (Faac Unesp, 1998), mestre (IAU USP, 2003), doutor (FAU USP, 2009), pós- doutor (Faup, 2014-2015), Professor dos Programas de Pós-Graduação Pósarq UFSC e PPGAU Unesp. Professor da UFSC e Líder do Grupo de Pesquisa de Projeto, Patrimônio, Percepção e Paisagem (UFSC). Introdução Este trabalho tem por objetivo produzir uma experiência a partir do caminhar como modalidade de pesquisa, aliando-o ao método da cartografia, tentando compreender um pouco mais sobre as questões ligadas à prática do caminhar descrita pelo arquiteto italiano Francesco Careri e a construção de uma cartografia subjetiva do espaço delineada por Rolnik. Pautados nessa questão, realizaram-se idas a campo visando experienciar ambas possibilidades de pesquisa em uma cidade brasileira. Foram realizados diversos trajetos em uma mesma localidade. Em cada uma das distintas imersões tivemos diferentes abordagens sensoriais. As informações coletadas foram compiladas em mapas individuais e depois condensadas e analisadas em uma única cartografia, de modo a fazer-ver parte das experiências que vivenciamos e alguns rebatimentos dos trabalhos dos referidos autores, além da nossa própria subjetividade. É importante discorrer sobre as motivações da escolha do lugar: a primeira delas é a aproximação da maioria dos autores com a capital do Mato Grosso. Além disso, Cuiabá, ora denominada “A Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá (FIORIN et. al., 2022, p. 85)” fazia parte do conjunto de vilas fundadas pela Coroa Portuguesa no século XVIII e, portanto, mantém uma construção diversa do espaço, devido a sua historicidade. Ademais, desde os primórdios, o seu processo de ocupação, bem como, a sua consolidação espacial, foram ditados por questões econômicas, interesses pela posse territorial e marcados pela segregação socioespacial, sendo assim, comparece para nós como um espaço rico em forças e estímulos. Dessa maneira, a configuração urbana resultante no centro histórico da cidade é extremamente pulsante, sendo um lugar bastante propício para diversas incursões. Para melhor descrever este trabalho, o dividimos aqui em três abordagens. A primeira trata da metodologia do fazer para saber – em um processo de vivência do espaço urbano. Nele trabalhamos os conceitos de Careri (2013; 2017) e de Rolnik (2016). O segundo, diz respeito ao caminhar e à cartografia propriamente ditos, ou seja, o fazer para saber em campo. O terceiro é uma análise posterior, tendo em vista o caso de Cuiabá e suas reverberações nas modalidades estudadas, traçando algumas considerações. O caminhar A estratégia do caminhar como prática estética (CARERI, 2013) é uma modalidade de pesquisa que possibilita um encontro com o passado e o presente. O que restou do antigo centro histórico, suas imagens e imaginários, em que pese a descoberta do novo, das ruínas e do próprio desaparecimento de algumas camadas de tempo, mas também dos processos de modernização. Caminhando pelo território saímos em busca de novas descobertas, de forma a identificar as camadas, que Careri (2017) trata como “ilhas de um arquipélago, cujo mar é um grande vazio informe”. Entretanto, como poderíamos conhecer cada detalhe, cada meandro desta ilha e, até mesmo deste arquipélago, se não nos perdêssemos nesses espaços, pois “quem perde tempo, ganha espaço (CARERI, 2017, p. 106)”. A cidade vai sendo desvelada pelos nossos corpos, a cada passo, a cada olhar, a cada cheiro, a cada som e a cada toque vamos identificando e ressignificando os lugares por onde passamos. “Um trajeto por si só é polissêmico e, assim, podemos nos deixar vagar pela errância do corpo e dos nossos sentidos, quase que indefinidamente, até onde os nossos pés nos fizerem chegar (FIORIN, 2020, p. 11)”. n.23, v.6 primavera de 2022 ISSN 2526-7310 293 n.23, v.6 primavera de 2022