1 Sob o muro, o espanto: o húmus grotesco de Raul Brandão Isabel Cristina Mateus Universidade do Minho/Cehum Começo por agradecer o convite que me foi dirigido para estar aqui hoje, neste lugar simbólico da ciência e da cultura portuguesas, e deste modo poder associar-me a esta iniciativa da APE e da Academia das Ciências de Lisboa, no encerramento das comemorações dos 150 anos do nascimento de Raul Brandão e dos 100 anos da primeira edição de Húmus. Dá-se hoje início ao primeiro dos três olhares anunciados sobre a vida e a obra de Raul Brandão, centrado no percurso biográfico do autor nortenho e no seu legado literário. Trata-se de um primeiro encontro com o escritor ao qual se seguirão outros olhares sobre uma obra que cultiva, desafia e dialoga com as outras artes, nomeadamente o cinema (como o comprova, entre outras, a adaptação de O Gebo e a Sombra de Manoel de Oliveira (2012) ou o teatro, seja aquele que Raul Brandão dramaturgo nos deixou, seja nas encenações de textos não-teatrais como A Farsa, monólogo, performance e instalação que o colectivo Karnart levou ao palco do Teatro D. Maria II, em 2014, com a actriz Sara Carinhas. Uma obra que dialoga ainda com a pintura (desde a pintura verbal e as aguarelas de Os Pescadores ou as Ilhas Desconhecidas à distorção, ao pathos e ao claro-escuro das telas expressionistas de narrativas como Húmus, A Farsa ou A morte do Palhaço). Isto sem deixar de sublinharo diálogo interartístico que estimulou, desde o conjunto de poemas inspirado em Húmus, de Herberto Helder (1966) ou o “Intróito aos “Pobres” de Fernando Lopes-Graça (1967) à ópera de Alexandre Delgado, em 1994, baseada na peça O Doido e a Morte. Raul Brandão foi um dos escritores mais inovadores do século XX, uma das vozes mais originais e decisivas no rasgar de caminhos que a nossa modernidade viria a trilhar. Uma das vozes que melhor soube dar forma e corpo às nossas angústias, aos nossos medos e contradições, aos nossos sonhos e pesadelos; que melhor nos soube ler por dentro e dar a ver em imagens, com a precisão, diríamos hoje, de uma ressonância magnética. À distância de mais de um século, Raul Brandão surge como um autor que ganha, nestes tempos de incerteza, de crescente brought to you by CORE View metadata, citation and similar papers at core.ac.uk provided by Universidade do Minho: RepositoriUM