Nós, os povos indígenas da Bo- lívia, ao longo da história fomos sujeitos à manipulação de nossa identidade pelas modas acadêmi- cas e pelos projetos políticos es- tatais. Nos chamavam de índios, selvagens, cholos, camponeses e, mais tarde, de reserva moral do mundo ou povos que vivem em harmonia romântica com a na- tureza. Foram sempre os outros que pretenderam nos nomear, ignorando o grito que afirmava e afirma: “Não somos camponeses! Somos aymaras! Somos quechuas! Somos guaranis!”. Neste livro, a antropóloga Chryslen Mayra Bar- bosa Gonçalves problematiza o debate identitário na região andi- na boliviana. Sua virtude é que ela não o faz – como na maioria das obras sobre o assunto – apenas a partir de uma análise de fontes se- cundárias e literárias, mas a partir de um trabalho etnográfico que coloca o tema em sua real com- plexidade, que é corporizado, politizado e que considera a resis- tência pelo devir índio. Roger Adan Chambi Mayta Advogado aymara e militante indianista-katarista Doutorando na Faculdade de Direito na Universidade Federal de Goiás. A Coleção X, sob a coordenação do professor Rafael Haddock-Lobo, pretende reunir obras que reflitam a potência filosófica dos cruzamentos, seja através do encontro entre filósofos, entre a filosofia e outras áreas do saber ou das encru- zilhadas que se anunciam silenciosamente no coração de cada teoria filosófica. O “X”, que designa o impossível, o incalculável, o inefável, anunciado na forma do “algo geral = x” da Crítica da Razão Pura de Kant, o “X” para nós inacessível e indefinível como indica Nietzsche em Verdade e Mentira..., a lógica do “X sem X” da desconstrução de Derrida, sempre se marcou nas teorias filosóficas para indicar aquilo de que não se pode falar. Porém, quando Derrida se refere ao “encontro no coração do quiasma” para falar de sua relação com Lévinas, ele traz à cena a encruzilhada grega que marca não apenas os corações, mas a própria ética e a própria política: certamente o quiasma se faz marcar desde a encruzilhada na qual Édipo encontra seu destino, mas mais aquém. O X das encruzilhadas se marca desde a África subsaariana, regida por Esù, por Pambu ia-njila, por Aluvaiá, por Legbá, e que no novo mundo ganham a regência de Eleguá, Légua, Petró, Maitre Carrefour e dos exus, pom- bagiras e malandros brasileiros. Guardiões dos cruzamentos de saberes, dos caminhos de pensamentos e co- municadores de encantos, as forças que habitam X se marcam e se mostram em cada teoria filosófica, mais explícitos em alguns textos ou na lei do mansinho, como diz Riobaldo, em outros. Esta força que habita X, que se mostra em cada cruzo e que se deixa representar, mesmo que de modo fugidio, pela própria for- ma da letra X, não se marca apenas na teoria, na ética ou na política. Seja na forma do encontro querido ou do versus da polêmica, X, que é sempre tensão, transborda em diversas referências dentro e fora da academia: desde o X que substitui os marcadores de gênero na linguagem escrita ao tão acessado X vídeos; desde as incógnitas matemáticas de qualquer equação ou da experiência de si impronunciável sobre a qual escreve Clarice até fenômenos da cultura po- pular como X-men ou Madame X e a todos os saberes produzidos nos bares nas esquinas desse país. É disso que X trata. É de tudo isso que a Coleção X tratará. EPISTEMOLOGIAS MANCHADAS Mestiçagem e sujeitos políticos da descolonização na Bolívia Andina CHRYSLEN MAYRA BARBOSA GONÇALVES EPISTEMOLOGIAS MANCHADAS Chryslen Mayra Barbosa Gon- çalves é doutoranda pelo Pro- grama de Pós-graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Estadual de Cam- pinas (UNICAMP). Atualmente é pesquisadora convidada na Uni- versidad de Barcelona (Espanha). Trabalha com grupos aymaras dos Andes bolivianos desde 2017 pesquisando sobre os temas de mestiçagem, identificações políti- cas, movimentos sociais aymaras e economias populares. Orcid: 0000-0002-6800-5073