355 O MATERIALISMO HUMANISTA: A DISTOPIA DE ROBERT BENSON 1 LUIZ CARLOS MONTANS BRAGA 2 As distopias estão na moda ao menos desde 1949, ano de publicação da mais famosa delas, 1984, de George Orwell (ORWELL, 2009). Como um clássico, que não cessou de dizer o que tem a dizer, na lapidar síntese de Ítalo Calvino (CALVINO, 2009, p. 18), o romance de tese de Orwell levanta questões que, mesmo mais de setenta anos depois, mantêm enorme atualidade. Dão a pensar. Fazem pensar. Winston Smith, o protagonista, personifica o indivíduo que perdeu sua subjetividade, seus afetos genuínos, sua vida, família, história. O Big Brother, que tudo vê, ouve, controla, representa o Estado-Partido que se capilariza no mais íntimo da vida dos indivíduos, dos “cidadãos”. As aspas são propositais. Na verdade, sequer cidadãos há. O que existe é uma massa amorfa de indivíduos movimentados como marionetes pelo Grande Irmão. No romance, o governo da Oceânia é administrado por quatro Ministérios, cada um com um nome irônico que é o oposto exato de suas verdadeiras funções. Da paz, responsável pela guerra, que nunca finda. Ministério da verdade (Miniver), responsável pela manipulação da informação e sua publicidade, reescrevendo constantemente os registros históricos para os adequar à narrativa do Partido, além de controlar os meios de comunicação ‒ literatura, filmes, música ‒ e a linguagem, a novilíngua. O ministério do amor é o responsável pela segurança interna e repressão política. É onde ocorrem os interrogatórios e lavagens cerebrais, como os sofridos por Winston Smith. O da fartura administra a economia e o racionamento de bens. Mantém a população em estado de escassez permanente, mas sempre anuncia estatísticas belíssimas de crescimento econômico. A ironia nos nomes dos ministérios reflete o duplipensar, conceito central da obra, significando que a verdade é travestida de várias camadas, tornando- se opaca. Ao fim, há, em lugar da verdade, as narrativas que servem aos interesses do Grande Irmão. 1 Resenha do livro BENSON, Robert Hugh. O Senhor do Mundo. Campinas: Ed. Sétimo Selo, 2021. 2 Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). E-mail: montansbraga@hotmail.com. Revista Ideação, N. 51, Janeiro/Junho 2025