75 Revista Brasileira de Sexualidade Humana RBSH 2020, 31(2); 75-77 DOI: https://doi.org/10.35919/rbsh.v31i2.450 RESENHA DE LIVRO DEVASSOS NO PARAÍSO: A HOMOSSEXUALIDADE NO BRASIL, DA COLÔNIA ÀATUALIDADE Matheus Svóboda Caruzo TREVISAN, J. S. Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. 4. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018. Esta resenha tem o objetivo de narrar a constituição da nacionalidade brasileira como identidade e a vivência da homossexualidade no Brasil, com base no livro Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil da colônia à atua- lidade, do autor João Silvério Trevisan. Trevisan é escritor, jornalista, tradutor e dramaturgo, além de um dos princi- pais nomes do ativismo LGBTQIA+ no Brasil. Fez parte do corpo editorial original do Lampião da Esquina, primeiro veículo midiático sobre questões acerca da sexualidade no Brasil, bem como participou do Somos – Grupo de Afirmação Homossexual, um dos primeiros coletivos pela busca de direitos aos LGBTQIA+ do país. Recebeu um pedido da editora britânica Gay Men’s Press, em 1982, e deu início à escrita da obra resenhada neste trabalho, descrevendo uma história da homossexualidade no Brasil. Assim, nos parágrafos seguintes serão esquadrinhados os principais acontecimentos e marcos históricos referentes à construção de uma identidade brasileira e à experiência homossexual no Brasil. Nos capítulos iniciais, Trevisan destaca que muito antes do grito de “terra à vista” ressoado pelos tripulantes da esquadra do português Pedro Álvares Cabral, em 1500, o nome Brasil qualificava uma ilha utópica com caracterís- ticas paradisíacas no imaginário europeu da Idade Média. Acreditava-se que a Ilha Brasil, ou Ínsula Deliciosa, estaria localizada perto da Irlanda – o que levou inúmeros nave- gadores ingleses a buscá-la. Desde a colonização, em meio a reviravoltas e mal-entendidos políticos, a identidade do brasileiro passou a ser gradativamente construída sob um projeto de nação que, estrategicamente, representaria um elo conetivo maior do que etnias ou nacionalidades, dado que a configuração do povo sempre foi heterogênea. Entre portugueses colonizadores, indígenas colonizados, negros africanos escravizados, prisioneiros portugueses aqui despa- triados e inúmeros exploradores vindos de todo o mundo, a utopia europeia aqui atracou, mas não foi efetuada. No capítulo 5, o autor ressalta que muitos foram os antropólogos e viajantes que desembarcaram no território brasileiro com intuito de realizar etnografias sobre os indí- genas e os costumes silvícolas. Os primeiros relatos sobre a configuração da sociedade indígena e os hábitos aborígenes no Brasil pontuam, dentre outras, a forte liberdade sexual e o intenso apetite sexual dos índios brasileiros. Nessa ótica, o historiador Abelardo Romero os apelidou de “devassos no paraíso”, apontando que seus princípios sobre o sexo e a sexualidade em nada se assemelhavam aos preceitos ocidentais baseados no Cristianismo. No paraíso tropical, o que mais estremecia as bases cristãs de compreensão era a prática da sodomia. Em 1576, o português Pedro de Magalhães de Gân- davo constatou que a sodomia estava presente entre os indígenas brasileiros como se não existisse a noção de homem e masculinidade, o que foi reafirmado pelo francês Jean de Léry em 1577. Livres dos estereótipos de sexo, os silvícolas brasileiros nada tinham a se preocupar quanto a se apresentarem “masculinos” ou “femininos”, haja vista a inexistência desses conceitos e atribuições de gênero. Trevisan remonta pensamentos do jornalista ame- ricano Allen Young (1973), que discute que o machismo e a homofobia disseminados na cultura latina e brasileira poderiam ser exterminados com relativa facilidade se comparados com os mesmos fenômenos enraizados na cultura europeia. A cultura latina per se jamais escondeu ou fingiu a inexistência da homossexualidade, ao contrário da cultura anglo-saxônica. Pode-se dizer, portanto, que a homossexualidade enquanto uma categoria e o homoero- tismo enquanto uma prática a qual eram designados cas- tigos e punições, só surgem como instâncias particulares e tributárias de sentidos específicos com a presença dos colonizadores em terras brasileiras. No capítulo 11, o autor descreve que com a ins- tauração do Estado português e da ótica cristã ocidental em terras tupiniquins, a outrora livre expressão de sexua- lidade entre os silvícolas transformou-se em objeto perse- cutório. Calcula-se que a Santa Inquisição portuguesa no Brasil processou mais de 40 mil pessoas, queimou mais de 1800 na fogueira e condenou quase 30 mil pessoas a outras punições. Na primeira e segunda visitação do Tribunal da Inquisição a Bahia, o crime de sodomia aparecia