Este texto corresponde à versão em português do artigo Ferreira, Luís Gonçalves. 2024. "Domesticating Colour in the Early Modern Age: Dyeing Wool in Black in Portugal" Heritage 7, no. 2: 873-895. https://doi.org/10.3390/heritage7020042 1 Domesticar uma cor na Idade Moderna: tingir lanifícios de preto em Portugal Luís Gonçalves Ferreira Lab2PT/IN2PAST - Universidade do Minho Resumo “Domesticar uma cor” envolve uma trama de relacionamentos tecnológicos e simbólicos estabelecidos pela capacidade humana para reproduzir uma cor visível recorrendo às técnicas da tinturaria têxtil. O regimento dos panos ou regimento dos trapeiros, publicado em 1573 e acrescentado em 1690, é um documento constituído por 107 capítulos que procuravam normalizar as várias fases da cadeia produtiva dos lanifícios produzidos em Portugal. O regimento, nos tópicos respeitantes aos acabamentos dos tecidos, detalhava com grande cuidado o tingimento da cor preta. O objetivo principal deste texto é debater as quatro receitas apresentadas naquele documento. O sistema pressupunha uma fase exógena às normas, pois os panos deveriam ser previamente tingidos de azul (“os celestes”) por sucessivas imersões do tecido num banho de cuba com índigo. O tingimento propriamente dito conseguia-se pela mistura de substâncias mordentes e auxiliares (alúmen, tártaro, sulfato de ferro e taninos) com um corante vermelho (a ruiva). A principal conclusão deste trabalho é que as fórmulas apresentadas não constituem, nos seus princípios gerais, um traço caraterístico português. Através do cruzamento com outras fontes manuscritas e impressas, trabalhadas segundo uma metodologia qualitativa, inventariamos as matérias-primas tintureiras da Idade Moderna, aproximamos a sua importância social e económica e sistematizamos as tipologias de lanifícios portugueses. Palavras-chaves: azul, idade moderna, lanifícios, preto, tingimento natural. Introdução As cores são omnipresentes no quotidiano humano, mas não é possível datar com precisão a sua domesticação. Este verbo, quando aplicado à biologia e à relação do ser humano com as outras espécies envolventes, impõe interdependência entre domesticados e domesticadores. As espécies domesticadas diferem das selvagens pois dependem dos seres humanos para se desenvolverem num ambiente co-evolutivo advindo da interação ecológica de base mutualista [1, pp. 663–665]. O problema é mais complexo do que a