estud. lit. bras. contemp., Brasília, n. 74, e7405, 2024 1 *Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: paulokralik@gmail.com e-ISSN: 2316-4018 SEÇÃO TEMA LIVRE Editor: Paulo César Thomaz Recebido em 6 de maio de 2024. Aceito em 15 de outubro de 2024. https://doi.org/10.1590/2316-40187405 O gosto pelas coisas mortas: Uma leitura de Diorama, de Carol Bensimon A taste for dead things: A reading of Diorama, by Carol Bensimon El gusto por las cosas muertas: Una lectura de Diorama, de Carol Bensimon Paulo Ricardo Kralik Angelini* Resumo O trágico assassinato de João Carlos Satti, conhecido político e jornalista de Porto Alegre, mobiliza a mídia e a sociedade gaúchas nos anos de 1980; Cecília, a filha do principal suspeito e colega de assembleia legislativa, reconta esses acontecimentos, mapeando a cidade que abandonou para se transformar numa bem-sucedida taxidermista nos Estados Unidos. Esse é o mote de Diorama, romance de Carol Bensimon (2022), que mergulha na ficcionalização de um dos crimes mais emblemáticos que o Rio Grande do Sul já presenciou: o assassinato do jornalista e deputado estadual José Antônio Daudt, figura forte e polêmica do cenário gaúcho da época. Equilibrando-se entre a história vivida e a história imaginada, a autora lança mão de uma narradora complexa, que se divide entre dois tempos distintos: o da infância, nos anos 1980, e trinta anos depois, quando vive nos Estados Unidos e decide retornar a Porto Alegre. Esse artigo pretende investigar os artifícios narrativos da engenhosa construção de Diorama, que ora traz uma voz em terceira pessoa, ora em primeira, ao mesmo tempo em que debate a importância do espaço na concepção da personagem e da obra como um todo: a casa de Porto Alegre; os museus onde a protagonista trabalha; lugares e não lugares que refletem as ações de Cecília e adensam o caráter tanto intimista quanto de investigação policial do romance. Para além disso, Diorama resgata um crime de homofobia no silenciamento das vozes dos grupos minorizados, mesmo daqueles que flertam com o poder, como foi o caso de Satti/Daudt. Como engrenagem teórica, o texto utiliza-se de nomes como Brian Richardson, Otto Bolnow, Marc Augé, Erich Fromm, Luis Alberto Brandão, Luiz Antonio Assis Brasil, entre outros. Palavras-chave: narrador; espaço; literatura brasileira contemporânea. Abstract The tragic murder of João Carlos Satti, a well- known politician and journalist from Porto Alegre, mobilizes the media and the society of Rio Grande do Sul in the 1980s. Cecília, the daughter of the main suspect and a fellow legislative assembly member, recounts these events, mapping out the city she left behind to become a successful taxidermist in the United States. This is the premise of Diorama, a novel by Carol Bensimon (2022), which delves into the fictionalization of one of the most emblematic crimes witnessed by Rio Grande do Sul: the murder of journalist and state deputy José Antônio Daudt, a strong and controversial figure in the scenario at the time. Balancing between lived history and imagined history, the author employs a complex narrator, who oscillates between two distinct periods: her Resumen El trágico asesinato de João Carlos Satti, conocido político y periodista de Porto Alegre, moviliza a los medios de comunicación y la sociedad gaúcha en la década de 1980; Cecília, la hija del principal sospechoso y colega de la asamblea legislativa, cuenta nuevamente estos eventos, trazando un mapa de la ciudad que dejó atrás para convertirse en una exitosa taxidermista en Estados Unidos. Este es el tema de Diorama, una novela de Carol Bensimon (2022), que se sumerge en la ficcionalización de uno de los crímenes más emblemáticos que ha presenciado el estado de Rio Grande do Sul: el asesinato del periodista y diputado estadual José Antônio Daudt, una figura influyente y polémica en la época. Equilibrándose entre la historia vivida y la historia imaginada, la autora utiliza una narradora compleja, que se