Espelho, Selfie e Subjetividade: A Revolução Invisível da Imagem de Si Vitor Pordeus Médico psiquiatra, artista e pesquisador em saúde coletiva, teatro e imaginação simbólica. Fundador da Teatro Clínica DyoNises, da Universidade Popular de Arte e Ciência (Rio de Janeiro, Brasil). Autor de diversos estudos sobre medicina comunitária, teatro, inconsciente e imagem. “O homem não devia poder ver o seu próprio rosto — nada é mais sinistro. A natureza deu-lhe o dom de não poder ver-se, de não poder fitar os seus próprios olhos. Só na água dos rios e dos lagos podia olhar o seu rosto. E a própria postura que tinha de assumir era simbólica: tinha de se curvar, inclinar-se, para cometer a ignomínia de se ver. O inventor do espelho envenenou o coração humano.” — Fernando Pessoa, Livro do Desassossego “…to hold as ’twere the mirror up to nature; to show virtue her own feature, scorn her own image, and the very age and body of the time his form and pressure.” — William Shakespeare, Hamlet, Act 3, Scene 2 I. O espelho é uma invenção recente Fernando Pessoa nos oferece uma chave filosófica e poética para refletirmos sobre o impacto simbólico do ver-se. Por quase toda a história humana, ver o próprio rosto era um evento raro, fragmentado, ritualizado. Era necessário curvar-se sobre a água — gesto simbólico de humildade diante do mistério da própria imagem. O espelho moderno, ao tornar-se acessível e banal, rompe esse pacto ancestral e inaugura uma nova era da subjetividade: o sujeito visível, editável, mensurável. 1