Manuel Pinto & Joaquim Fidalgo (coord.) Anuário 2006 – A comunicação e os media em análise Projecto Mediascópio Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade Instituto de Ciências Sociais Universidade do Minho ISBN: 978-989-95500-0-1 A rádio na encruzilhada digital: um olhar sobre o meio Pedro Portela (pedroportela@ics.uminho.pt) Há três perdas incontornáveis a registar, em 2006, no panorama radiofónico português, pois este foi o ano que viu desaparecer José Ramos, Eduardo Street e Rui Andrade. Todos, em áreas de actuação diferentes, intimamente ligados à história do meio e à sua concepção estética tradicional. São muitos os que não lhe identificam a fisionomia mas que certamente lhe reconhecem a voz. José Ramos foi, durante 13 anos a “voz oficial” da SIC, mas o seu timbre inconfundível já tinha marcado os ouvintes que o acompanharam na Rádio Comercial, depois na Rádio Nova e, recentemente, na Antena 1. A expressividade da sua voz produziu autênticos “acontecimentos no mundo sonoro” (Zumthor, 2005), ajudou a dar sentido plástico e emocional à rádio e conquistou o respeito e a admiração dos seus pares, que o reconhecem como um dos melhores locutores portugueses de sempre. Já Eduardo Street fica na nossa memória pela sua intensa actividade ligada ao teatro radiofónico, primeiro na Emissora Nacional e depois na RDP, tendo sido o autor português que mais peças, folhetins e séries criou para a rádio. O modo como se entregou apaixonadamente ao «teatro invísivel» (termo que o próprio utilizou para o título de um livro por si escrito, apresentado publicamente em Maio de 2006), contribuiu para uma realização prática da teorização de Rudolph Arnheim (2005) acerca da essência da arte em rádio, um meio capaz de “oferecer a totalidade apenas por meio sonoro”. A voz de Rui Andrade faz parte do imaginário colectivo dos amantes da rádio com mais de 30 anos, para quem personagens como Patilhas e Ventoínha evocam a memória de um estilo humorístico leve e quase saloio, que foi a imagem de marca do programa radiofónico português com maior longevidade. Ele foi o último dos fundadores dos Parodiantes de Lisboa a desaparecer. 119