Revista Espaço Acadêmico, nº 97, junho de 2009 http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/index 83 Rupturas e continuidades no processo de transição administrativa: as lições da prática Rosimar Serena Siqueira Esquinsani * A cada pleito eleitoral, nos distintos níveis da federação, é comum se instalar um certo clima de insegurança entre os funcionários públicos vinculados a esfera federativa que terá eleições. A possibilidade de que, muito em breve, uma nova administração desestruture tudo que foi edificado pela administração em curso causa sentimentos paradoxais: alívio para alguns, preocupação para outros. Ainda que seja vitoriosa a mesma sigla partidária do quadriênio findo, fatores como composições da majoritária, coligações e nomeações no segundo e terceiro escalões do governo, geram períodos de transição. Transições administrativas são, em geral, momentos de balanços e feedback para a administração que encerra e de expectativas e propostas sobre a administração que inicia. Contudo, nem sempre este processo é tão pacífico ou ‘civilizado’ quanto deveria. Por vezes, os interesses pessoais – legítimos enquanto manifestação de vontades – deixam marcas que tornam penoso o rito transitivo, não por cargos que trocam de comando, mas por sentimentos envolvidos ao longo do trabalho que finda. Em outros casos, pressões para a manutenção de nomes, tornam a transição administrativa uma tarefa emblemática, sobre a qual pairam muitas dúvidas, informações desencontradas e até algumas suposições. Estas situações implicam em um certo ar de ruptura obrigatória com projetos e ações desenvolvidas pela administração que termina, para lamento dos que se dispuseram a encampá-los. Destarte, a prática naturalizada de um certo compromisso com a ‘mudança’ em relação ao que o outro (partido, administração, secretário, grupo...) fazia, por vezes deságua em projetos abortados, ainda que isto não signifique necessariamente continuidade (de administrações) ou continuísmo (de práticas e grupos). O eterno recomeçar, que vincula políticas públicas a políticas ou planos de governos quadrienais, faz com que o início de quase toda administração seja mais expectativa do que confiança, mais indagações do que respostas, mais inquietações do que segurança. Partindo das premissas levantadas acima, o texto segue refletindo sobre transições e rupturas administrativas, bem como as (im) possibilidades de permanência (o que condiciona projetos educativos a quadriênios). O aporte para tais afirmações vem de uma pesquisa empírica com abordagem qualitativa, realizada em uma rede pública municipal de ensino de um município de porte médio, no interior sul-rio-grandense, a partir do mapeamento de dezesseis anos (1992-2008), ou quatro administrações municipais. O objetivo precípuo residiu em acompanhar quatro mudanças de governo e a forma como foram encaminhadas as transições administrativas, sendo que a investigação foi desenvolvida dentro de duas abordagens: a análise de conteúdo, advinda de fontes * Doutora em Educação, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo/ RS.