1 CONFLITOS E PERSPECTIVAS NAS RELAÇÕES ENTRE BIOLOGIA E CULTURA # Charbel N. El-Hani a , Lília Maria A. Moreira b , Adriana L. M. Souza c , Cristiane P. Andrade d , Mônica S. Silva e , Válter Forastieri f , Luiz Roberto B. Mott g e Antonio Marcos Pereira h 1. A CONTROVÉRSIA NATUREZA-CULTURA A controvérsia acerca da importância relativa da herança e da experiência na ontogênese e evolução do comportamento marcou durante muito tempo a história das ciências comportamentais. Ela foi a tônica de um acirrado debate entre etólogos europeus e psicólogos comparativos americanos (Goodenough et al., 1993). Os etólogos, inspirados pelos trabalhos de Konrad Lorenz, preocupavam-se sobretudo com a evolução do comportamento e, logo, com seu significado adaptativo. Neste quadro de interesses, eles salientavam a herança dos traços comportamentais, moldados pelo processo de seleção natural e constrangidos pelas pressões adaptativas a que estão sujeitos os organismos. Criou-se uma polarização entre a investigação em etologia, centrada na evolução e papel adaptativo do comportamento, e um outro programa de pesquisa, desenvolvido por psicólogos americanos que estavam mais interessados no desenvolvimento do comportamento individual. A controvérsia entre a etologia e a psicologia comportamentalista (behaviorista) resultou em uma dicotomia prejudicial à adequada compreensão do comportamento: ele ou era herdado ou era aprendido, ele era moldado ou pela seleção natural ou pelas experiências do indivíduo. Perdia-se de vista a possibilidade, óbvia mas submersa pela natureza incisiva do debate, de ser o comportamento a um só tempo produto da biologia e da cultura, do processo evolutivo e do aprendizado social (Goodenough et al., 1993). Com o tempo, argumentos convincentes e dados experimentais conduziram cada lado à percepção de que havia méritos nas idéias defendidas pelo lado oposto. Conceitos fundamentais foram reformulados e, embora existam ainda diferenças de ênfase e acusações de pensamento dicotômico de um e de outro lado, chegou-se a uma síntese da etologia clássica e da psicologia comparativa. Reconhece-se que o comportamento não é um produto da biologia ou da cultura, mas da biologia e da cultura, que tanto o ambiente como a herança, tanto o inato como o adquirido são componentes importantes no desenvolvimento do comportamento. # Este artigo foi apresentado no Congresso Internacional de Saúde Mental, realizado em Canela-RS, de 1 a 4 de maio de 1997. Publicado em Interfaces (Salvador-BA), Vol.1, n. 1, pp. 10-16. a Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas, Depto. de Biologia, IB-UFBA e Faculdade de Educação, USP. Correspondência deve ser encaminhada para C. N. El-Hani (Rua Leandro Dupret, 41, Vila Clementino, São Paulo-SP. CEP: 04025-010. E-mail: charbel@usp.br). b Laboratório de Genética Humana, Depto. de Biologia, IB-UFBA. c IB-UFBA. Bolsista de Iniciação Científica, PIBIC-UFBA/CNPq. d FFCH-UFBA. Bolsista de Iniciação Científica, PIBIC-UFBA/CNPq. e FFCH-UFBA. f IB-UFBA g Depto. de Antropologia, FFCH-UFBA e Grupo Gay da Bahia. h Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas, Depto. de Biologia, IB-UFBA e ISP/FFCH-UFBA. Bolsista de Iniciação Científica, PIBIC-UFBA/CNPq.