Os Croiset na história positivista da Literatura Grega* Henrique Cairus (UFRJ) Por longas décadas a bibliografia essencial em toda a Europa e América Latina para o estudo da Literatura Grega era a obra dos irmãos Croiset, Maurice e Alfred, intitulada “Histoire de la Littérature Grecque”. Essa obra que formou gerações de grandes mestres teve seu primeiro tomo publicado em 1887 e seu quinto e último tomo, em 1899. Sua proposta de periodização da literatura grega é vigente até hoje em quase todos os cursos de estudos clássicos. Paralelamente ao projeto comum, os irmãos Croiset desenvolveram com mútua independência seus trabalhos. Depois de décadas de atividade como manual de literatura, a obra foi finalmente substituída por outras que não lhe superavam senão por uma feição mais sintética; posteriormente, sua função didática passou a ser desempenhada por manuais mais afinados com a prática de crítica e história literária de nossos tempos. É o exemplo mais célebre deste grupo de obras o manual de literatura grega da Universidade de Cambridge. Muito recentemente as obras que foram momentaneamente abjuradas em detrimento de outras mais modernas na prática da pesquisa sobre o corpus literário voltaram a merecer os olhos dos estudiosos. O lugar dessas obras, porém, não poderia mais ser o de antes. Mas tais obras não merecem também lugar menos digno, pois passam elas mesmas a constituir- se corpus de análise, objeto de investigação. Não faltam mais intelectuais em nossa época que se dediquem ao estudo dessas obras e de seu imaginário. Cito, a título de exemplo, o pesquisador brasileiro José Antonio Dabdab Trabulsi, Professor Titular de História da UFMG e autor da obra “La cité grecque ‘positiviste’”, e o Professor François Hartog, do Centre Louis Gernet da EHESS, que publicou o livro O século XIX e a história: o caso Fustel de Coulanges. Para comentar a obra de fôlego dos irmãos Croiset, começarei pelo seu aspecto mais conhecido: a proposta de periodização. A periodização, cronológica certamente, trazia, contudo, desde o início, um dado inovador: a idéia de uma transição de estágios que supunha uma convivência de um modus