XI Congresso Internacional da ABRALIC Tessituras, Interações, Convergências 13 a 17 de julho de 2008 USP – São Paulo, Brasil Adorno e Scholem: mística e teoria da literatura Prof. Dr. Eduardo Guerreiro Brito Losso (UERJ) 1 Resumo: É sabido que Theodor Adorno foi influenciado por Walter Benjamin em suas considerações sobre literatura moderna, em especial, uma certa mística da linguagem que trata textos profanos "como se fossem sagrados", cuja virtude ética está em remeter para a "salvação do sem esperança". Con- tudo, foi pouco estudada a troca de cartas entre Adorno e o grande terceiro personagem dessa dis- cussão, o historiador da cabala e amigo de Benjamin Gerschom Scholem. O trabalho vai refletir sobre a curiosa simpatia da relação do materialismo adorniano com a mística, sua valorização da "minúcia profana" como chave de um messianismo e uma redenção negativa. A partir daí, desem- bocaremos em suas conseqüências na relação da teoria da literatura como a secularização e a crí- tica da metafísica. Palavras-chave: teoria da literatura, mística na modernidade, Theodor Adorno, Gerschom Scholem, literatura moderna Introdução É sabido que Theodor Adorno foi influenciado por Walter Benjamin em suas considerações sobre literatura moderna, em especial, uma certa mística da linguagem que trata textos profanos "como se fossem sagrados", cuja virtude ética está em remeter para a "salvação do sem esperança". Contudo, foi pouco estudada a troca de cartas entre Adorno e o grande terceiro personagem dessa discussão, o historiador da cabala e amigo de Benjamin Gerschom Scholem. Nessa troca, o que mais ressalta em termos teóricos para entender certos elementos obscuros da filosofia adorniana é um texto sobre Scholem, outro sobre Benjamin e uma carta a Scholem, que analisaremos abaixo. 1 Para uma profanação do sagrado Na homenagem a Scholem por seus 70 anos de idade, feita em 5 de dezembro de 1967, Ador- no afirma que a concepção de mística praticada com veemência por Scholem apresenta, num mo- vimento histórico-filosófico, uma “imigração” (Einwanderung) na profanidade, que não evita uma certa corrupção (ADORNO, 1986, p. 481). A força radioativa dessa queda é o que a força a entrar na idade do esclarecimento. Esse fenômeno é visto por Adorno como a mais profunda ironia (der tiefsinnigen Ironie). Mais adiante Adorno afirma que o trabalho de Scholem é uma tomada de parti- do (parti pris) pelo heterodoxo contra o estabelecido, também contra a religiosidade oficial, e chega a interpretar psicanaliticamente que o impulso político de sua juventude foi desta forma sublimado, sem deixar de ousar frente à pressão objetiva do mundo. O ponto principal da obra de Scholem resi- de, portanto, na apresentação de um processo de secularização da mística (ADORNO, 1986, p. 484). Adorno insiste que, apesar das diferenças, há nesse ponto uma concordância entre Benjamin e Scholem e, na carta que veremos adiante, ele termina se incluindo nessa concordância de modo até muito veemente e emotivo (ADORNO; TIEDEMANN, 1998, p.146-7). Agora precisamos entender melhor o que Adorno quis dizer com profanação da mística, rea- lizada na arte moderna em geral e em pensadores como Scholem. Vê-se que, se a profanação é um inevitável descolamento laico do que era religioso, ela é, para Adorno, a única salvação possível da metafísica, da teologia e da mística. A fonte próxima principal de onde Adorno retira essa idéia é,