Rev. bras. paleontol. 12(2):123-138, Maio/Agosto 2009 © 2009 by the Sociedade Brasileira de Paleontologia doi:10.4072/rbp.2009.2.03 PROVAS 123 ESPÍCULAS DE ESPONJAS CONTINENTAIS NOS SEDIMENTOS CENOZÓICOS DO NOROESTE DE MINAS GERAIS, COMO INDICADORES PALEOAMBIENTAIS ABSTRACT – FRESHWATER SPONGE SPICULES FOUND IN THE CENOZOIC SEDIMENTS OF NORTHWEST MINAS GERAIS, BRAZIL, AS PALEOENVIRONMENTAL INDICATORS. This study relates to the spongillite deposits associated with the Cenozoic detritic cover, occurring in shallow ponds (with a maximum depth of 3.5 m) on a karstic planation surface developed on the rocks of the São Francisco Neoproterozoic Supergroup, in the region of João Pinheiro, Northwest Minas Gerais State, Brazil. They have a lenticular shape and contain different sedimentary layers of spicules intercalated with layers of quartz sand and clay minerals. The examination of the spicules by light microscopy, aimed at the specific identification of the freshwater sponges, showed spongofacies of six sponges typical of Brazilian spongillite deposits: Metania spinata (Carter, 1881), Dosilia pidanieli Volkmer-Ribeiro, 1992, Trochospongilla variabilis Bonetto & Ezcurra de Drago, 1973, Corvomeyenia thumi (Traxler, 1895), Heterorotula fistula Volkmer-Ribeiro & Motta, 1995 and Radiospongilla amazonensis Volkmer-Ribeiro & Maciel 1983. The variation in composition of the assemblages and the stage of formation and preservation of the spicules in the different facies, as well as the presence of diatoms and abiotic components, suggest environmental variations at the time of their formation and deposition. The results of 14 C-radiocarbon and stable isotope ratio δ 13 C analysis showed an age for the formation of the deposits between the Late Pleistocene and Holocene. Key words: spicules, freshwater sponges, paleoclimate, spongillite deposits, paleoenvironment. RESUMO – Este estudo está relacionado com os depósitos de espongilito que ocorrem em lagoas rasas assentadas sobre uma superfície cárstica que capeia rochas neoproterozóicas do Supergrupo São Francisco, na região de João Pinheiro, noroeste do Estado de Minas Gerais, Brasil. Os depósitos são lenticulares e contêm diferentes camadas sedimentares de espículas intercaladas com camadas de sedimentos arenoquartzosos e argilominerais. A caracterização microscópica das espículas levou à identificação das seis espécies de esponjas de água doce que compõem a típica espongofácies dos depósitos de espongilitos brasileiros: Metania spinata (Carter), Dosilia pidanieli Volkmer-Ribeiro, Trochospongilla variabilis Bonetto & Ezcurra de Drago, Corvomeyenia thumi (Traxler), Heterorotula fistula Volkmer-Ribeiro & Motta e Radiospongilla amazonensis Volkmer-Ribeiro & Maciel. A variação da composição dessas assembléias, o estágio de formação das espículas e sua conservação nos distintos horizontes amostrados em duas lagoas, além da presença de diatomáceas e outros compos- tos abióticos sugerem uma variação ambiental na época da formação destes depósitos, alternando períodos de clima mais úmido e frio e de clima mais seco com chuvas torrenciais. Datações de 14 C e δ 13 C estabeleceram idades de formação destes depósitos entre o Pleistoceno Superior-Holoceno. Palavras-chave: espículas, esponjas de água doce, paleoclimatologia, depósitos de espongilitos, paleoambientes. ARIANA CRISTINA SANTOS ALMEIDA Programa de Pós-Graduação em Evolução Crustal e Recursos Naturais, UFOP, Campus Universitário, Morro do Cruzeiro, s/n, 35400-000, Ouro Preto, MG, Brasil. arianasalmeida@gmail.com CECÍLIA VOLKMER-RIBEIRO Museu de Ciências Naturais, Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul, Cx. P. 1188, 90001-970, Porto Alegre, RS, Brasil. cvolkmer@fzb.rs.gov.br ANGELICA FORTES DRUMMOND CHICARINO VARAJÃO, NEWTON SOUZA GOMES & CÉSAR AUGUSTO CHICARINO VARAJÃO Programa de Pós-Graduação em Evolução Crustal e Recursos Naturais, UFOP, Campus Universitário, Morro do Cruzeiro, s/n, 35400-000, Ouro Preto, MG, Brasil. angelica@degeo.ufop.br, cesar_varajao@yahoo.com.br, newton@degeo.ufop.br INTRODUÇÃO O espongilito é uma rocha sedimentar constituída por espículas silicosas de origem biogênica pertencentes a espongiários (Classe Demospongiae) de ambiente lacustrino de águas doces e paradas, de terrenos peneplanizados, as- sociadas à argila, areia, matéria orgânica e frústulas de diatomáceas (Dias et al., 1988). Os depósitos ricos em