Estilo e repetição: Deleuze e algumas poéticas contemporâneas Annita Costa Malufe Há um conceito bastante recorrente nos textos de teoria ou crítica literária que trazem alguma referência a Gilles Deleuze. Talvez mesmo quem não conheça sua filosofia já o tenha lido ou ouvido em algum lugar. Trata-se do conceito de “gagueira”. No ensaio intitulado “Gaguejou...”, no livro Crítica e clínica, Deleuze desenvolve mais pontualmente a ideia de uma gagueira criadora associada a alguns escritores – mas o termo aparece em outros lugares de suas obras também. E esses escritores, os tais “gagos”, são, para ele, alguns dos mais inventivos. Poderíamos estranhar, à primeira vista, por que e como algo que é considerado um “desvio” no modo correto de falar é a tal ponto positivado na obra de Deleuze. A gagueira, que seria um “erro” no bem falar, uma deficiência ou um débito, é revertida ali em um procedimento de linguagem de certo modo intencional, ou até mesmo técnico, adotado por alguns escritores e poetas. A gagueira aparece, em Deleuze, como um procedimento de escrita desejado e desejável; um procedimento extremamente potente em termos criativos. À primeira vista, é possível este conceito causar um certo incômodo. Ele pode soar como uma espécie de capricho do filósofo, de exagero, tendo como objetivo “forçar a mão” para defender uma certa concepção de estilo liberto do peso da tradição – e da correção. Afinal, em sintonia com as propostas literárias do século XX, para Deleuze é fundamental que se desloque o conceito de estilo: ter estilo, em literatura, deixa de ser a qualidade de quem escreve corretamente, segundo as regras da gramática e da sintaxe. Ter estilo, após todas as experiências das vanguardas, aproxima-se muito mais de uma criação sintática do que de uma obediência à sintaxe da língua mãe. O estilo é antes de tudo uma subversão, uma transgressão às leis gramaticais, estando mais próximo do erro do que do acerto, do desvio do que da norma. Desse modo, a gagueira, enquanto desvio da norma padrão da fala, se agrega ao coro de quem defende esta outra concepção de estilo a partir de Deleuze. Muitas vezes o possível incômodo com o termo vem daí, sendo corroborado por artigos que se utilizam de alguns filosofemas deleuzeanos para justificar suas leituras de autores da literatura. E, nesse movimento, a gagueira pode acabar tomada em uma associação quase metafórica, acabando, assim, reduzida a um mero tique da fala, ou convertida numa espécie de bandeira, de sinônimo de palavras mágicas como o “erro”, o “desvio”, a “abertura”. O que ocorre, nesses casos, é a perda da força operacional do conceito. Reduzido a uma mera terminologia, ele perde sua espessura, bem como seu traço singular, ou seja: perde aquilo que só ele, ao ser criado, pôde tornar pensável em um determinado momento. Como diz Deleuze, um conceito é criado por força de um encontro violento, com algo ainda não pensado, não pensável; ele vem à existência por ser, subitamente, necessário. Cada conceito nasce, então, enquanto ponto vital em uma determinada malha de relações. Ele é uma peça de um jogo, uma peça em toda uma rede, da qual ele, ao ser retirado, corre o risco de perder totalmente o sentido. 1 Cadernos de Letras (UFRJ) n.26 – jun. 2010 http://www.letras.ufrj.br/anglo_germanicas/cadernos/numeros/062010/textos/cl26062010Annita.pdf