1 ABRINDO A CAIXA-VERDE: ESTUDO SOBRE A IMPORTÂNCIA ECONÔMICA DO AUTOCONSUMO NA AGRICULTURA FAMILIAR MERIDIONAL Flávio Sacco dos Anjos Nádia Velleda Caldas Catia Grisa Paulo André Niederle Evandro Pedro Schneider RESUMO O artigo focaliza o tema do autoconsumo na perspectiva da agricultura familiar, à luz de recente pesquisa (UFPEL-UFRGS) que vem sendo desenvolvida no Rio Grande do Sul, sob os auspícios do CNPq e FAPERGS. Envolveu um total de 238 estabelecimentos familiares pesquisados, distribuídos em quatro microrregiões da geografia gaúcha. A atenção está posta na análise sobre as diferenças existentes entre as explorações do ponto de vista das práticas de autoconsumo por força das transformações estruturais desencadeadas a partir da revolução verde e dos efeitos a ela vinculados. Explora, igualmente, o peso da matriz cultural como chave explicativa para entender os contrastes verificados entre os estabelecimentos situados em diferentes microrregiões. A primeira secção aborda a relevância do autoconsumo enquanto objeto de reflexão acadêmica e de política pública, enquanto a segunda enfoca o marco teórico/metodológico da pesquisa. A terceira secção situa as características essenciais de cada uma das zonas estudadas em termos dos aspectos histórico-culturais mais proeminentes. A quarta secção analisa os dados relativos a cada uma das zonas estudadas, revelando a respectiva importância do autoconsumo na composição da renda familiar, bem como as causas que permitem entender tais diferenças. A quinta e última secção reúne as conclusões principais do trabalho. Destaca-se a Serra Gaúcha, representada pelo município de Veranópolis, como a localidade onde o autoconsumo adquire uma importância absoluta e relativa considerável em relação às demais áreas de estudo. Palavras-chave: agricultura familiar, autoconsumo, segurança alimentar. 1. INTRODUÇÃO: O PROBLEMA DE PESQUISA A década precedente estabelece um importante ponto de inflexão na história econômica e social brasileira face à consolidação da noção correspondente à agricultura familiar enquanto objeto de reflexão, momento no qual dá-se o aparecimento de uma experiência inédita de um programa de fomento - o PRONAF - comprometido com um setor que, segundo algumas fontes (GUANZIROLI et al, 2001), abrigaria em seu interior 4,139 milhões de estabelecimentos agrícolas. Do ponto de vista das ciências sociais o problema que se apresenta é fundamentalmente gerir a diversidade de situações que se ocultam sob a égide desta noção, no sentido de estabelecer critérios básicos de definição do que se entende como situações típicas de agricultura familiar. A maior ou menor rigidez não pode ser entendida como simples arbitrariedade ou um mero afã classificatório, mas como um meio através do qual estabeleçam-se as bases para aperfeiçoar o processo de intervenção estatal de modo a