119 A SANITARIZAÇÃO DO IMAGINÁRIO URBANO E O CRESCIMENTO DE LISBOA NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX Joana Cunha Leal Há uma questão implícita (explicita?) no título deste Colóquio que é decisiva na análise contemporânea dos fenómenos artísticos: Existe criação sem constrangimento? Pode a arte superar, ou mesmo romper, as condicionantes históricas e sociais que estruturam o seu campo? Serão essas condicio- nantes realmente exógenas? A questão tem, evidentemente, vários graus de complexidade e mantém-se sob forte polémica nos nossos dias: a reivindicação da autonomia da criação artística con- tinua a confrontar-se com o descrédito que recai sobre a ideia de uma estética pura, sistematicamente desmisticada pelo pensamento sociológico. Este último vive, em compensação, sob a difundida acusação de reducionismo. Esse conito não parece ser tão agudo quando a obra de arte em questão pertence ao campo da arquitectura ou é a própria cidade. A ideia de que o espaço edicado entretece sólidas e necessárias relações com a estrutura social é, neste caso, conside- ravelmente mais pacíca. Estas relações estabelecem-se não só porque a sua concep- ção/criação é socialmente constrangida 1 , mas porque o espaço urbano acolhe vivên- cias quotidianas capazes de multiplicar o sentido das suas representações (R. Barthes 1997 [1967]). Mesmo um defensor da autonomia do campo como Aldo Rossi assume, no já clássico A Arquitectura da Cidade (2000 [1966]), a centralidade das questões eco- nómicas na construção da cidade . Do mesmo modo, a política é apresentada como 1 Esse constrangimento vem sendo analisado e discutido com base em diferentes perspectivas sociológicas. Confronte-se, por exemplo, as abordagens teóricas de M. Foucault, P. Bourdieu e A. Giddens. 2 Cf. A. Rossi (2000 [1966], 204). Escreve mesmo: «Sem pretender traçar um quadro de referência para a história do estudo da cidade, pode-se armar que existem dois grandes sistemas: o que considera a cidade como o produto de sistemas funcionais geradores da sua arquitectura, e portanto do espaço urbano, e o que considera a cidade como uma estrutura espacial. No primeiro caso a cidade nasce da análise de sistemas políticos, sociais, económicos, e é tratada sob o ponto de vista destas disciplinas; o segundo ponto de vista Arte e Poder.indd 119 28-01-2009 11:23:58