1 Publicado em: Coelho, Wilma de Nazaré Baía e Coelho, Mauro Cézar (Orgs) Trajetórias da diversidade na Educação: formação, patrimônio e identidade. São: Editora Livraria da Física, 2012, pp. 19-50. Educação, trabalho e diversidade étnica: Educandos Artífices e Africanos livres na Amazônia, século XIX Patrícia Melo Sampaio Universidade Federal do Amazonas (UFAM) 1 Resumo: O texto usa, como fio condutor, a presença de Africanos livres que trabalhavam na Casa dos Educandos Artífices, instituição dedicada ao ensino profissionalizante de meninos índios do Amazonas, para colocar em relevo a diversidade étnica presente na região ao mesmo tempo em que discute noções associadas à natureza do trabalho livre, à “civilização” dos índios e ao papel da educação no Brasil oitocentista. Palavras-chave: educação, trabalho livre, diversidade étnica. Uma mulher caminhava em direção ao igarapé curvada pelo peso da enorme trouxa de roupa que levava à cabeça, mas não era aquele o maior peso do dia. Se algo tirava o sossego de Apolinária naquela manhã, era a postura do diretor da Casa dos Educandos Artífices. Havia algum tempo que estava todo ouvidos para a maledicência que existia contra ela. Diziam, para não mencionar o pior, que era ladra e dada a bebedeiras. Puro exagero daquela gente. Aborrecida com o que tinha ouvido naqueles dias, gastou tempo observando a casa do diretor na outra margem, agitada pela bulha de seus oito filhos e da criadagem. A água escura do igarapé de Manaus estava fria. Talvez nem tenha percebido preocupada com a possibilidade de deixar a casa. Pensava no que aconteceria aos seus filhos, Firmino e Luiza, que já tinham tido sua cota no trabalho duro na Olaria. A vida melhorara um pouco quando o estabelecimento dos Educandos foi implantado e ela, designada para o cargo de lavadeira. Verdade que não ganhava muito. O jornal não passava de 500 réis e mal daria 1 Esta investigação vem sendo desenvolvida no âmbito de três projetos de pesquisa: a maior parte corresponde às atividades da Bolsa de Produtividade/CNPq (2011/2014). A partir de 2011, passou a integrar o projeto Saúde e Condições de Vida de Povos Indígenas na Amazônia, Programa de Apoio a Núcleos de Excelência (PRONEX/FAPEAM/CNPq, Edital 003/2009) e, mais recentemente, foi incluída no projeto de pós-doutorado sobre as trajetórias dos Africanos livres na Amazônia, realizada no Programa de Pós-Graduação em História da UNICAMP com apoio da CAPES/REUNI/UFAM (2012-2013). Este trabalho tem uma dívida com a generosidade de Beatriz Mamigonian (UFSC) que, em 2008, quando esboçava este projeto, cedeu-me todos os seus dados sobre os Africanos livres no Amazonas e Pará. Ainda devo imenso à dedicação de Eliana Ramos Ferreira (UFPA), incansável na identificação de novos documentos sobre Africanos livres no Arquivo Público do Pará enquanto conduzia sua própria pesquisa sobre mulheres cabanas. A elas, meu sincero agradecimento.