O Copyright da miséria e os discursos sobre a exclusão Ivana Bentes "Feio e esperto com uma cara de mal /A sociedade me criou mais um marginal/ Eu tenho uma nove e uma HK / Com ódio na veia pronto para atirar" (MV Bill) Nunca houve tanta circulação e consumo de imagens da pobreza e da violência, imagens dos excluídos, dos comportamentos ditos "desviantes" e "aberrantes". A violência e a denúncia de crimes se tornou quase um gênero jornalístico. O que seria interessante se essas imagens não viessem freqüentemente descontextualizadas. A violência aparecendo como "geração espontânea" sem relação com a economia, as injustiças sociais, é tratada de forma espetacular, acontecimento sensacional, folhetim televisivo e teleshow da realidade que pode ser consumido com extremo prazer. Programas como Linha Direta, Cidade Alerta, Ratinho, entre outros, que trabalham com o denuncismo e a delação, sempre nos ambientes da pobreza, criam um temor e insegurança difusos que ao invés de produzir um discurso de mudança e integração, reforçam, de modo conformista, a distância social entre os grupos. A criminalização do funk no Rio de Janeiro 1 , num primeiro momento, foi apenas um sintoma desse temor da ascensão social e cultural dos grupos de jovens saídos da periferia e que conquistavam o mercado. O sucesso desses movimentos, funk e hip-hop, acabavam por reforçar relação acrítica e descontextualizada veiculada incessantemente entre crime, pobreza e violência. As conseqüências mais visíveis desse discurso do "temor" foram: mais indiferença à origem da pobreza e às injustiças estruturais, mais segurança privada, LUGAR COMUM N o 17, pp 85-95 1 As questões relativas à música e ao hip-hop tem como base a pesquisa de Micael Herschmann: O Funk e o Hip Hop invadem a cena (editora UFRJ) e o artigo, escrito em parceria, "O Espetáculo do Contradiscurso" publicado no Suplemento Mais! Folha de São Paulo, domingo 18 de agosto de 2002.