                 ! "# $  "% & ’(’&’ ) *++ ,     A FORMAÇÃO DE OBJETOS NOS DISCURSOS SOBRE A SURDEZ: UMA ANÁLISE FOUCAULTIANA. Maria Salomé Soares Dallan; Márcia Aparecida Amador Mascia Universidade São Francisco mariasalome@uol.com.br 1. INTRODUÇÃO Há um combate “pela verdade” ou, ao menos, “em torno da verdade” – entendendo-se, mais uma vez, que por verdade não quero dizer “o conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar”, mas o “conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder”; entendendo-se também que não se trata de um combate “em favor” da verdade, mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômico-político que ela desempenha. (Foucault, 1979, p. 13) Iniciamos nossa reflexão através desta citação, motivadas pelas questões de produção de positividades em Foucault (Foucault, 2002), mais especificamente a discussão a respeito da formação dos objetos, por entendermos que estes mantêm uma imbricada relação no âmbito das formações discursivas e, portanto, na produção de positividades. Para dar consecução ao trabalho, faremos um pequeno preâmbulo sobre as indagações que nos mobilizam. Em seguida, abordaremos o referencial teórico que embasou a pesquisa – Arqueologia do Saber– através de uma pequena sinopse. Detalharemos a formação dos objetos de um discurso através de excertos de enunciados oriundos de formações discursivas que têm como objetos de discurso os sujeitos não-ouvintes. Encerraremos o artigo com reflexões que demandam novos trabalhos. Através do contato com alunos não ouvintes falantes de Libras, pudemos perceber um movimento discursivo forte 1 , que visa retirar as pessoas que têm surdez – e que falam a Língua de Sinais – da categoria de “Deficiente Auditivo 2 ”. Segundo Skliar, esta é uma visão clínico-terapêutica e psicológica da surdez (Skliar, 1997, p. 114), e opta por inscrevê-los nos discursos antropológicos. Atualmente os adeptos desta corrente discursiva, nomeiam-se por “povos surdos” (Ströbel, 2006 e 2008), localizam-se geográfica e espacialmente 1 Refiro-me aqui especificamente ao Brasil, atualmente, fortemente ligado aos movimentos internacionais realizados pela World Federation of the Deaf. 2 Código Internacional de Doenças – CID H90.0 até H91.9 – A visão de que “compete à medicina atuar no sentido da cura e do tratamento em relação às disfunções do organismo” (Soares, 1999, p. 108).