7. A EXPLORAÇÃO DOS RECURSOS ICTÍICOS 127 7. A exploração dos recursos ictíicos SÓNIA GABRIEL 7.1. Introdução Os restos de peixes recuperados em jazidas arqueológicas são, como qualquer outro ves- tígio faunístico, fundamentais na reconstrução do passado (ecologia e estratégias de subsis- tência) (Casteel, 1976). O seu estudo permite estimar o tamanho, peso e idade que teriam os especímenes, e analisar os métodos de pesca, áreas e épocas de captura. Este tipo de informa- ção é possível porque os peixes são explorados de populações selvagens, e ainda que a sua abundância natural tenha mudado ao longo do tempo, é seguro, dentro de certos limites, assumir que a sua biologia e morfometria (base sobre a qual assentam as supra mencionadas estimativas), não tenha sofrido alterações drásticas (Wheeler, 1979). A pesca é o resultado da adaptação dos grupos humanos aos recursos e técnicas disponí- veis num determinado tempo e espaço (Souto, 2007). Apesar da proximidade de Portugal com o mar, da importante rede de bacias hidrográficas e do potencial arqueológico existente, pouca atenção se tem prestado às arqueoictiofaunas. Daqui resulta um reduzido número de publica- ções (cerca de 20 em três décadas de investigação), produzidas por investigadores não residen- tes ou dedicados a outras disciplinas. Este vazio deve-se principalmente à inexistência, até recen- temente, de uma colecção osteológica comparativa, e de pessoas dedicadas ao estudo das arqueoictiofaunas (Gabriel, em preparação). Os dados obtidos neste estudo, a par dos alcançados para Vale de Frade (Araújo & alii, em preparação), constituem os primeiros para o conhecimento da ictiofauna do Mesolítico Inicial português. Apesar do reduzido número de restos recuperado, espera-se que a informa- ção obtida contribua para alargar o conhecimento da exploração das fontes alimentares de ori- gem aquática (espécies exploradas, época e zona de captura), e que, no futuro, este conjunto de dados possa formar parte de uma revisão mais abrangente dos padrões de exploração dos recursos ictíicos em Portugal. 7.2. Material e métodos O material analisado diz sobretudo respeito às campanhas arqueológicas realizadas nesta jazida em 1995, 1997 e 1998 (ver Parte 1). Os restos de ictiofauna foram recuperados manualmente (com coordenação tridimensional), ou no decurso da triagem dos refugos resultantes do processo de crivagem dos sedimentos a água), apresentando porém indicações de proveniência espacial e estratigráfica. Foi igualmente incluído neste estudo um conjunto de quatro restos ícticos exumados no decurso das sondagens arqueológicas realizadas em 1986 neste concheiro, da responsabilidade de David Lubell (na Propriedade A, ver Parte 1), e desde essa altura depositados no Museu Municipal Leonel Trindade (Torres Vedras). Este con- junto de restos apresentava uma numeração sequencial que antecedia a designação PAN (Pandeiro, ver Parte 1), realizada aquando da sua integração no circuito expositivo daquele Museu. Dada a ausência de informações seguras sobre o significado da numeração atribuída a cada um destes artefactos (isto é, da sondagem e do nível artificial em que foram exuma-