Apontamentos filosóficos para uma (nova) política e uma (também nova) educação da in- fância Walter Omar Kohan 1 A infância nos preocupa, como nada na vida. Também na academia. Não há campo disci- plinar que não tenha se ocupado da infância: sociologia da infância, filosofia da infância, história da infância, psicologia da infância, literatura infantil e, é claro, educação da infân- cia, educação infantil, este grupo de trabalho. Temos colocado a infância no centro de nos- sas preocupações. Dentre todas elas, há duas áreas que se mostram mais fortemente ativas: a história e a psicologia. O dado não deixa de ser curioso para uma época que procurou decretar – ilusoriamente? - o fim da história e a morte do homem. Exemplo do peso da história é a dificuldade em encontrar um trabalho acadêmico sobre a infância que não mencione ou pressuponha o célebre historiador das mentalidades, Ph. Ariès (1981), e sua tese da invenção moderna do sentimento da infância. A tese acaba insta- lando-se como verdade naturalizada: a infância “se torna” uma invenção moderna. Conside- remos apenas um exemplo, tomado do início de palestra apresentada recentemente em mesa redonda de Colóquio Internacional: “Como sabemos, a infância é uma invenção moderna, iluminista, e a possibilidade de entende-la em sua especificidade nos proporcionou interpre- tações diversas...” 2 Chamam a atenção alguns detalhes; primeiramente, que a infância seja considerada uma invenção; segundo, que a invenção seja de “a” infância e não de “uma” infância; terceiro, que essa invenção seja adjetivada de moderna, iluminista; mas o que mais nos provoca é esse início: “como sabemos”, o que naturaliza e torna uma obviedade o que vem depois; o “como sabemos” é sinônimo de “naturalmente”, “evidentemente”, “co- mo tudo mundo sabe”. E quando tudo mundo sabe ninguém sabe. Quando algo se torna natural ou evidente, deixa de ser pensado. Mau sinal para a infância. 1 Professor Titular de Filosofia da Educação da UERJ. E-mail: walterk@uerj.br Agradeço o convite de Maria Carmen S. Barbosa e Ana Beatriz Cerisara por me encomendar este trabalho para o Gt de “Educação Infantil – 0 a 6 anos”. Uma versão parcial, aqui modificada, deste trabalho foi apresentada no VI Encontro de Pesqui- sa em Educação da Região Sudeste (Rio de Janeiro: UERJ, maio de 2004). 2 VAZ, Alexandre Fernandes, Infância, escolarização, semiformação. In: Anais do Colóquio Internacional “Teoria Crítica e Educação”. Piracicaba, SP: UNIMEP, 13-16 Set. 2004. CD-Rom.