POESIA À MARGEM DO VERSO Maria Esther Maciel No poema “Limites ao léu”, incluído no livro póstumo La vie en close (1991), Paulo Leminski faz um inventário de vinte e duas definições de poesia, extraídas de textos poéticos ou teóricos de autores advindos de diferentes contextos e tradições. Abarcando, predominantemente, poetas e críticos integrantes do cânone literário da modernidade — mais especificamente do primeiro romantismo alemão e inglês até as vanguardas da segunda metade do século XX —, a lista leminskiana coloca em um mesmo topos dizeres distintos e, muitas vezes, contraditórios, sobre o que se entende por poesia. Se, por um lado, tais definições apontam várias possibilidades de se capturar — nos limites provisórios de uma frase ou um verso — a multiplicidade inerente ao objeto, por outro, indiciam também o próprio malogro de qualquer tentativa de sua circunscrição a esses mesmos limites. Isso, porque a poesia é todas essas e outras coisas, dependendo dos contextos, pretextos, linhagens, perplexidades ou demandas de cada poeta, podendo inclusive não ser nenhuma delas. E é para dizer dessa impossibilidade de se fixar um conceito para o que está sempre em movimento, que Leminski lança, ao final, uma definição que funciona como uma leitura em contraponto de todas as definições arroladas: “a poesia é a liberdade de minha linguagem”. Em outras palavras, ela se indefine ou se infinitiza na potencialidade de ser livre, de levar às últimas conseqüências ou colocar a descoberto os próprios limites da linguagem. Se Leminski, enquanto poeta da descompressão do verso e da palavra, deu-se a ousadia de não definir um caminho, mas inventar inúmeras vias para o exercício criativo da palavra, pode-se dizer que não foram poucos os poetas — mesmo entre os adeptos da “religião do esmero” 1 — que buscaram praticar a liberdade no ato de inventar ou reinventar uma linguagem. Liberdade essa que, de acordo com as inquietações de cada um, assumiu feições e propósitos diferenciados, podendo justificar desde certas rupturas (disciplinadas ou não) de uma tradição, de uma dicção, de uma forma cristalizada, até a criação de sistemas ou anti-sistemas poéticos em dissídio contra outros que, por sua vez, também foram criados em nome de outras formas ou utopias de liberdade coletiva ou 1 Expressão usada por Emil Cioran para designar a linhagem poética de Paul Valéry. 29