1 APRENDER É FAZER DE ALGO, ALGO SEU: PRÁTICAS DE EMAGRECIMENTO EM COMUNIDADE DO ORKUT 1 Viviane Castro Camozzato 2 No artigo Da ascese à bio-ascese ou do corpo submetido à submissão ao corpo, Ortega (2002) procura diferenciar as práticas de bio-ascese contemporâneas, entendidas como práticas de assujeitamento e disciplinamento, das práticas ascéticas da Antigüidade, como práticas de liberdade, e entendidas como “o conjunto mais ou menos coordenado de exercícios disponíveis, recomendados, e até mesmo obrigatórios, ou pelo menos utilizáveis pelos indivíduos em um sistema moral, filosófico e religioso, a fim de atingirem um objetivo espiritual definido” (FOUCAULT, 2004, p.505). Nesse sentido, o autor entende “por ‘objetivo espiritual’ uma certa mutação, uma certa transfiguração deles mesmos enquanto sujeitos, enquanto sujeitos de ação e enquanto sujeitos de conhecimentos verdadeiros” (ibidem). Poderemos ver, aí, práticas que tem objetivos diferenciados e que, portanto, produzem modos de subjetivação diferenciados também. Enquanto na ascese da Antigüidade as práticas de si tinham por função produzir singularidade, sujeitos resistentes às representações exteriores, constituindo-se como sujeitos éticos, podemos ver, no entanto, que as novas práticas de bio-ascese contemporâneas expressam o desejo de uniformização, adequação a esquemas e lógicas compostos, modos de existência em que aparece como prioridade a saúde e a perfeição corporal (ORTEGA, 2002). Como o referido autor afirma: “A idéia de uma ascese exclusivamente corporal, as bio-asceses contemporâneas, é completamente estranha para o pensamento antigo” (p.145). Em comunidades do orkut que versam sobre dietas e transtornos alimentares tende-se a salientar, portanto, preocupações que seus participantes e mantenedores manifestam sobre imagem corporal. Expressam, em suma, uma preocupação com a aparência, com o olhar que os outros põem sobre si ao invés das preocupações que envolviam os gregos, de inquietação frente ao seu ser. Poderíamos, aqui, fazer uma contraposição entre a dietética para os gregos – entendida como um “regime geral de existência do corpo e da alma”, como “uma das formas capitais do cuidado de si” (FOUCAULT, 2004, p.74) – e os infinitos cuidados com o corpo de agora, em que trocamos, ao que parece, um cuidado de si como forma de relacionar-se e inquietar-se consigo mesmo para preocupações sobre ações individuais que giram em torno de 1 Recorte da dissertação de mestrado da autora. Tal pesquisa faz parte, ainda, do projeto de pesquisa Identidades juvenis em territórios culturais contemporâneos, coordenado pela Profª Drª Elisabete Maria Garbin. Maiores informações vide <www.ufrgs.br/neccso/gjovem>. 2 Mestranda em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, integrante do Núcleo de Estudos sobre Currículo, Cultura e Sociedade (NECCSO). Bolsista do CNPq. Endereço eletrônico: vipoa2002@gmail.com