A indústria da música brasileira hoje – riscos e oportunidades 1 Micael Herschmann 2 e Marcelo Kischinhevsky 3 Resumo: A partir do estudo de caso do circuito cultural do samba & choro (Lapa, RJ) e da perspectiva da economia política da comunicação e dos estudos culturais, este artigo pretende analisar a crise atual da indústria da música, a qual é de grande importância para o desenvolvimento do país. Buscase com este tipo de reflexão subsidiar políticas públicas mais democráticas, colaborando, entre outras coisas, para a preservação do pluralismo cultural regional e para a elaboração de políticas de desenvolvimento local sustentável. Palavras chave: Comunicação, Cultura, Indústria da Música, Políticas Públicas. Introdução Neste artigo analisamos um setor da “indústria cultural” 4 muito debatido, especialmente no Brasil  em função da sua vitalidade , mas, infelizmente, ainda pouco conhecido. A contribuição dos estudiosos em esmiuçar a estrutura e a dinâmica desse “circuito cultural” 5 – que envolve as etapas de produção, consumo, regulação, representação e identidade  é quase nula, ou melhor, o pouco que se conhece dessa indústria são as pesquisas oficiais que são na sua maioria elaboradas pelo Ministério da Cultura, através de seus consultores (Prestes Filho e outros 2005; Prestes Filho, 2002). No campo da comunicação a lacuna de estudos que tratem do quadro local é ainda mais gritante: há pouquíssimos trabalhos gerados pelos pesquisadores da área e 1 Artigo publicado na coletânea organizada por FREIRE FILHO, João e JANOTTI JUNIOR, Jeder em 2006 (Comunicação & Música popular massiva. Salvador: EDUFBA, pp. 87110). Este paper reúne alguns dos resultados parciais do projeto de pesquisa intitulado “Comunicação, Cultura e a Indústria da Música do Estado do Rio de Janeiro  subsídios para a elaboração de políticas de desenvolvimento local sustentável e políticas culturais democráticas”, que vem desde 2005 sendo apoiado pela CAPES e pela SR2/CNPq. Agradecemos a Beatriz Buarque pelo o auxílio a pesquisa. 2 Professor da Escola de Comunicação da UFRJ, onde coordena o Núcleo de Estudos e Projetos em Comunicação. Autor de vários ensaios e livros (individuais e em parceria), dentre os mais recentes, destacamse: Comunicação, Cultura e Consumo. A (des)construção do espetáculo contemporâneo (Ed. EPapers, 2005), Mídia, Memória & Celebridades (Ed. EPapers, 2003) e O funk e o hiphop invadem a cena. (Ed. UFRJ, 2000)). 3 Jornalista e doutor em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação da UFRJ. 4 A noção tradicional de “indústria cultural” é utilizada aqui com reservas, na medida em que se reconhece neste estudo a necessidade de repensarmos um novo quadro conceitual de análise (diferente do proposto pela Escola de Frankfurt) a partir do qual seja possível uma melhor compreensão da dinâmica contemporânea no campo da produção (bem como da circulação e do consumo) de produtos culturais, de informação e de entretenimento na Era da Informação e do Conhecimento (mais informações, ver BOLAÑO, César. Indústria cultural, informação e capitalismo. São Paulo, Hucitec, 2000). Ramón Zallo propõe a seguinte definição que traz alguns avances importantes, isto é, considera as indústrias culturais como: “(...) um conjunto de setores, segmentos e atividades auxiliares industriais produtoras e distribuidoras de mercadoria com conteúdos simbólicos concebidos por um trabalho criativo, organizadas por um capital que valoriza e é destinado ao mercado de consumo, com uma função de reprodução ideológica e social (Zallo, 1988, p. 26).”