CRISE DAS REPRESENTAÇÕES E O DÉFICIT DE URBANIDADE Vânia Morales Sierra * A sociedade contemporânea passa por uma crise generalizada no sistema de representação. Neste artigo serão apresentadas algumas das transformações que levaram o sistema de justiça a exercer uma função central nas democracias, correlacionando a difusão da idéia de cidadania com as possibilidades de sua efetivação no espaço urbano. 1. A sociedade e o lugar do terceiro Segundo a perspectiva antropológica de Legendre (1992), “o Estado é a referência fundadora das gerações que se sucedem”; ele desempenharia o papel do “terceiro” que antes seria atribuído a Deus, ao chefe, ao padre. Isto é, seria o outro capaz de garantir a reprodução da ordem, ocupando, subjetivamente o espaço da representação, o lugar onde se situa a palavra, veículo de ligação entre a referência e o sujeito, fundamento da ordem legal. Assim, quando a religião, a tradição, os costumes deixam de ser os fundamentos organizadores da sociedade, o Estado se substitui ao vazio - ele é a referência comum fabricada. Essa fabricação está estruturada sobre a mesma base em que foi montada a ordem religiosa, quer dizer, o Estado passou a ocupar o lugar de uma referência abstrata fundadora da ordem dos indivíduos. No pensamento de Legendre, o direito moderno é uma construção racional constituída por montagens normativas. O autor utiliza o conceito de montagem para exprimir a idéia de que as normas do direito moderno são representações do divino e do que ele comporta: a lógica da verdade, que exprime na sociedade o desejo político de Deus. Neste sentido, os direitos humanos constituem uma montagem que expressa uma versão do cristianismo secularizado. Segundo Legendre, é a perspectiva da referência abstrata que produz a vida política e social, pois, para ele, a própria instituição do humano deriva do reconhecimento de que, ao agir, os indivíduos são capazes de levar o outro em consideração, não simplesmente porque este procedimento é necessário, mas também porque existe um “terceiro” que os ultrapassa. Legendre entende que a atual crise do Estado é decorrente do enfraquecimento de sua função paternal, de sua incapacidade de elaboração de um discurso confiável a respeito da filiação e da questão do proibido. Neste sentido, a debilidade do Estado não derivaria da ausência