Nossa P et al Acesso e Utilização de Dados no Domínio da Investigação em Saúde
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REVISÃO ISSN 0871-3413 • ©ArquiMed, 2007
Acesso e Utilização de Dados no Domínio da Investigação em Saúde
Paulo Nossa*, Maria de Fátima Pina†
*Departamento de Geografia, Instituto de Ciências Sociais (ICS), Universidade do Minho; †Serviço de Higiene e
Epidemiologia, Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Instituto de Engenharia Biomédica, INEB, Uni-
versidade do Porto
ARQUIVOS DE MEDICINA, 21(3/4):103-9
O acesso aos dados de saúde envolve um conjunto de procedimentos que se prendem com a problemática da pri-
vacidade e consentimento de acesso imposto pelas autoridades nacionais versus o interesse público subjacente às
actividades de investigação. O presente artigo tem como principal objectivo discutir a problemática do acesso aos
dados em saúde por parte de investigadores. Os autores defendem uma clarificação de procedimentos e adopção de
“boas práticas” essenciais tanto ao nível de recolha como de acesso dos dados, incluindo a qualidade dos mesmos,
fundamental para o entendimento das desigualdades em questões de saúde.
Palavras-chave: acesso a dados; boas práticas; qualidade de registo; consentimento; investigação em saúde.
INTRODUÇÃO
Um dos estadios fundamentais em qualquer processo
de investigação compreende uma sequência de procedi-
mentos interdependentes, centrados na problemática do
acesso, tratamento e utilização dos dados de investiga-
ção, comportando os seguintes aspectos: definição da
tipologia de dados a utilizar, mecanismos de acesso e
procedimentos envolvidos na recolha de dados, explo-
ração, análise de dados e, como corolário, interpretação
de resultados e validação de hipóteses.
A problemática do acesso aos dados, bem como os
procedimentos de recolha que lhe são subjacentes, as-
sumem particular relevância no âmbito da investigação em
saúde e, por extensão, em todas as áreas disciplinares
que utilizam directa ou indirectamente dados relacionados
com a saúde e com a doença. Qualquer processo de
investigação exige, regra geral, o tratamento de dados
oriundos de diversas fontes, sujeitos a diferentes níveis
de agregação e produzidos a diferentes escalas, pelo
que o esforço e atenção dos investigadores ao nível da
autorização de acesso e compatibilização dos materiais
a recolher pode ser significativo quer em termos de
custos, quer em termos de tempo necessário para a sua
compilação e harmonização.
Neste contexto e procurando sistematizar um con-
junto de dificuldades de acesso com que os autores se
têm debatido ao longo do tempo versus o previsto no
ordenamento jurídico nacional procedeu-se, ao nível dos
dados primários à revisão de um conjunto de documentos
produzidos pela Comissão Nacional de Protecção de
Dados (CNPD) que tem como uma das suas atribuições
controlar e fiscalizar o processamento de dados (pes-
soais), tendo as decisões por si produzidas força obri-
gatória. Paralelamente, os autores trazem à discussão um
conjunto de limitações relacionadas com a qualidade e
acesso a dados secundários, quer por via da diversidade
da sua apresentação quer pela sua classificação como
segredo estatístico. O conceito de segredo estatístico,
aposto com maior frequência a partir de 2000 para dados
de saúde, pode ser aplicado quer a microdados quer
a macrodados e destina-se a garantir a anonimização
das bases de dados com o objectivo de limitar o risco
de que informação classificada como sensível sobre os
respondentes possa ser descoberta a partir da consulta
dos dados divulgados a terceiros sendo, por esse motivo,
objecto de diversas técnicas de controlo de divulgação
incluindo a supressão local (1).
A generalidade dos dados, e também os dados em
saúde, podem ser ordenados em concordância com as
suas fontes sendo comum a classificação dos mesmos
como dados primários, ou dados de nível primário, e dados
secundários, ou dados de nível secundário (2,3).
Por dados primários entendem-se todos os dados
cuja recolha é processada e orientada directamente pelo
investigador, ou pela equipa de investigação, tais como:
dados resultantes de investigação laboratorial, aplicação
de questionários, rastreios, notificações, diagnósticos,
elementos subsidiários de diagnósticos, entre outros.
Deve entender-se que apenas parte dos dados
compilados e processados ao nível primário são objecto
de divulgação estatística, mantendo-se, naturalmente,
critérios de confidencialidade para a maioria das infor-
mações relacionadas com a prática clínica, respeitando
critérios de sigilo impostos pela deontologia médica.
Todavia, o interesse público e científico subjacente aos
processos de investigação em saúde, devidamente vali-
dados, devem moderar critérios mais restritos de acesso,