Sistema Internacional e Revoluções: Causas para o fracasso dos movimentos revolucionários no Congo Igor Castellano da Silva * RESUMO O estudo das revoluções é marcado pela análise de casos em que os processos revolucionários obtiveram sucesso (realizaram mudanças político-sociais), enquanto pouco tem se pensado sobre as causas de seus fracassos. Este trabalho busca contribuir para o preenchimento desta lacuna, questionando-se: por que a revolução não ocorreu no Congo-Leopoldville recém independente, apesar da existência de grupos (Mulele e CNL) que implantaram a luta armada entre 1963 e 1968? Adota-se um modelo que integra as percepções de Jack Goldstone e Fred Halliday sobre as condições para o surgimento e o sucesso de processos revolucionários. O argumento proposto é que, apesar de cumprir quase todos os requisitos para a revolução, os movimentos revolucionários do Congo, foram realizados frente a um ambiente internacional desfavorável, além de pecarem (no caso do CNL) em sua base ideológica. Conclui-se que condicionantes internacionais são elementos centrais para a ocorrência ou não de revoluções e que o seu estudo é fundamental para o próprio progresso das teorias que abordam este fenômeno. Palavras-chave: Revolução, Congo-Leopoldville, Pierre Mulele, Laurent Kabila. A África do pós-II Guerra Mundial foi marcada pela libertação nacional incentivada pela onda de democratização na Europa. Estruturalmente, vivia-se um mundo caracterizado pela estabilidade bipolar entre os grandes e pelas “guerras quentes” no Terceiro Mundo. Esta realidade ficou evidente, no caso do continente africano, nas décadas de 70 e 80, com a ebulição de guerras revolucionárias apoiadas externamente, principalmente nos países que tiveram sua descolonização mais tardia. Entretanto, na década anterior (1960), estes mecanismos ainda não estavam inteiramente estabelecidos. Isto ocorria principalmente pelo fato de que a União Soviética (URSS) apenas recentemente sinalizava uma recuperação frente ao quadro do imediato pós-II Guerra (marcado pela predominância norte-americana e pelas políticas reativas do Kremlin) e de que os sinais de uma possível distensão com os Estados Unidos (marco da Crise de Suez) eram ainda muito frágeis (marco da Crise dos Mísseis). Estas características estruturais do sistema internacional foram determinantes para o sucesso ou o insucesso dos movimentos revolucionários do Terceiro Mundo no período. Este trabalho analisa o caso do Congo 1 e do primeiro movimento de libertação nacional africano no contexto neocolonial, e questiona “por que a revolução não ocorreu no país, apesar da existência de grupos (Mulele e CNL) que implantaram a luta armada entre 1963 e 1968?”. A tentativa de resposta ao problema parte do modelo analítico das condições para as revoluções proposto por Goldstone (2001) – adicionando-se o elemento explicativo de Halliday (1999): as variáveis do sistema internacional. O argumento é que, apesar de cumprir quase todos os requisitos para a revolução, os movimentos de libertação nacional do Congo, * Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é mestrando do PPG-Ciência Política pela mesma universidade. 1 Trata-se do Congo-Leopoldville, atualmente República Democrática do Congo (ex-Zaire).