Os embates da memória Horizontes, v. 23, n. 1, p. 29-38, jan./jun. 2005 29 Os embates da memória Edwiges Maria Morato * Fernanda Miranda da Cruz ** Resumo Com base na reflexão que tem produzido a Lingüística sobre o tema da memória, mais especificamente sobre as relações entre linguagem e memória, gostaríamos de focalizar os efeitos das ambigüidades e dicotomias do pensamento científico sobre seu entendimento. Nossa hipótese é que os modelos explicativos, os atuais vetores epistemológicos e mesmo a escolha de certos domínios empíricos para analisar essa relação não deixam de partir sempre de uma aporia central em nossa tradição científico-filosófica: por um lado, a extrema confiabilidade em relação a ambas enquanto possibilidade de configuração e acesso ao conhecimento; por outro lado, a desconfiança permanente em relação à facticidade da linguagem e à falibilidade da memória. Não é por outro motivo que a alteração da linguagem ou a da memória – afasia e amnésia – parece ser o pior dos males de nossa civilização, como tem nos mostrado toda a tradição científico-filosófica ocidental. Palavras-chave: Memória; Práticas sociais; Doença de Alzheimer; Confabulação; Discurso. Memory clashes Abstract The outstanding importance attached to the theme of memory, more specifically to the relations between memory and language by the Linguistics reflexion, will be here discussed. Our focus will be on the effects of ambiguity and dichotomy of scientifical thoughts about its understanding. Our hypothesis is that the explanatory models, the current epistemological indicators, or even our choice of a certain empirical domain to be referred in order to analyze this mentioned relation, come all from our common scientific-philosophical tradition: on one hand there is the unshaken confidence in the relation that these two concepts (memory and language) have with the possibility of configurating and accessing the knowledge, on the other hand there is the conspicuous lack of confidence in language’s facticity as well as in memory’s failure. It is not for other reason that the impairments of language and of memory – aphasia and amnesia – seem to be the worst evils of our civilization, as our traditional western scientific- philosophical has been showing. Keywords: Memory; Social practices; Alzheimer disease; Confabulation; Discourse. Os embates Para entendermos, de uma maneira panorâmica, os embates cotidianos da memória e da linguagem frente à visão largamente escatológica que ainda anima o discurso científico sobre nossas formas de apreender e significar o mundo, reportemo-nos aos “sete pecados da memória” elencados por Schacter (2001) num livro dedicado ao chamado grande público. Dos sete pecados por ele mencionados, três seriam caracterizados como omissão, e são eles: o pecado da transitoriedade, relativo ao enfraquecimento da memória com o passar do tempo; o da distração, que representa uma ruptura na interface entre a atenção e a memória; o do bloqueio, que afetaria a busca por uma informação que não parece acessível no momento de sua evocação. Os outros quatro pecados seriam o do cometimento, relativo à atribuição errada, ao equívoco em relação a uma determinada informação; o da sugestiona- bilidade, responsável, por exemplo, pelas lembranças criadas como resultado de perguntas tendenciosas, comen- tários ou sugestões feitos quando uma pessoa está tentando se lembrar de uma experiência do passado; o da distorção, relativo a influências do nosso conhecimento atual e opiniões sobre o modo como nos lembramos do passado; e, por fim, o da persistência, que tem a ver com a recordação de informações ou acontecimentos perturba- dores que preferimos não lembrar, mas que insistem em permanecer presentes. Como podemos facilmente observar, os pecados da memória são ao mesmo tempo os que afetam nossa percepção do mundo (tida nesse cenário judicioso como ideal, porque racional, intuitiva, natural), e os que não deixam de ocorrer sem o concurso mais ou menos Endereços para correspondência: ∗ E-mail: edwiges@iel.unicamp.br ∗∗ E-mail: fmcruz@iel.unicamp.br Horizontes, v. 23, n. 1, p. 29-38, jan./jun. 2005