SANDRA COSTA SALDANHA Secretariado Nacional para os Bens Culturais da Igreja Q uando há meses concluíamos um capítulo dedicado à escultura do mosteiro de S. Vicente de Fora, na sua mais recente publicação, pudemos então apre- sentar novos dados referentes aos desaparecidos jardins monásticos 1 . Como frequentemente suce- de, desde logo os resultados da investigação se revelavam exíguos. Mas disso mesmo prosse- gue a pesquisa, e novas pistas se abriam para estudos vindouros. Fechada a edição, na aprecia- ção do trabalho, na partilha dos dados, emerge como fun- damental o Arquivo Contem- porâneo do Ministério das Finanças. Agradeço à Celina Bastos a informação. Dados inéditos vinham clarificar alguns daqueles hiatos, mas já não a tempo de integrarem a obra. A essas revelações se deve este breve artigo. Acervo ao qual nem sempre é dada uma justa atenção, não é de facto ali que se descortinam autorias, contra- tos de obra ou informações coevas para a História Moderna. Mas a sua prepon- derância vai muito além dessa factualidade. É nas séries documentais que encerra, nos preciosos arrolamentos de bens cultuais, tes- temunhos conservados da desditosa execu- ção da Lei da Separação do Estado das Igre- jas, que se encontram aque- las que serão, porventura, as derradeiras, mais incólumes e completas descrições de centenas de conventos, mos- teiros, igrejas e dioceses que, desde 1911, viam despojados os seus edifícios, alienado e disperso o seu património. Desencadeando um processo, sem precedentes, de nacionalização do património da Igreja Cató- lica em Portugal, realizava-se, de paróquia em paróquia, o inventário de todos os bens afectos ao culto. Será discussão para um outro local, mas não deixa de vir a propósito, no ano em que se evoca o centenário da República. Motivação displicente, geradora do que viria a causar polémi- ca convulsão, nem sempre entendida, em torno dos Bens Cul- turais da Igreja. Bens Cultuais, como os designariam nesse contexto. 100 anos depois, esta documentação assume uma relevância central para a preservação do património da Igreja em Portugal, fundamental que é, não apenas para o seu conhecimento, mas ainda para a emergente tarefa de actuali- zação e reelaboração de inventários. DE S. VICENTE DE FORA AOS PALÁCIOS NACIONAIS Quanto ao programa escultórico dos jardins de S. Vicente de Fora, cujo rasto se dissipava em finais de Novecentos, tais informações permitiram a sua reconstituição, assim como uma primeira aproximação ao seu paradeiro actual. Delimitada em 1673, a cerca do mosteiro de S. Vicente de Fora possuía um significativo conjunto de esculturas nos seus jardins. Integradas num programa decorativo mais vas- to, complementado por diversos painéis azulejares, foram cerca de 40 as obras contabilizadas. Apesar de escassas as informações que nos esclareçam quanto à sua encomenda, é elucidativa, para o conhecimento de algumas das estátuas existentes, a descrição de D. Inácio Transferência das obras de escultura dos jardins de S. Vicente de Fora Do Paço Patriarcal aos Palácios Nacionais Ao lado: O Inverno | Em cima: O Verão Tapada das Necessidades | Fotos Nuno Saldanha