205 Buridina, uma pequena aldeia Karajá incrustada no centro da turística ci- dade de Aruanã (GO), é, há muito tempo, conhecida pela intensidade de sua incursão no mudo dos tori, i.e., dos não-índios. Os primeiros etnólogos que pas- saram pela região do rio Araguaia, às margens do qual estão aldeia e cidade, tais como Fritz Krause (cuja viagem data de 1908) e Herbert Baldus (que esteve na região em 1935 e 1947), já descreviam essa aldeia como bastante “aculturada”. Ainda hoje, a impressão de um observador desavisado é exatamente essa. Os Karajá comem nossas comidas, estão integrados ao comércio local, usam nossas roupas, nossa língua, nossos nomes, têm televisões, telefones, fogões, geladeiras, freezeres, bicicletas, algumas motos, camas, guarda-roupas, barracas de acampa- mento, canoas de alumínio com motores de popa etc. Além do fato de terem muitos amigos não-indígenas na cidade e, sobretudo, filhos com eles, a maioria da população da aldeia sendo mestiça. Para grande parte dos moradores e visitan- tes de Aruanã, a aldeia é apenas mais um bairro da cidade e os índios pouco (ou nada) se diferenciam deles. 1 Se a noção de aculturação tem sido combatida pela antropologia no Brasil desde pelo menos a década de 1950, o estigma da acultu- ração continua vivo na cosmologia de uma parcela considerável da população nacional, e certamente ainda pesa sobre esta população. Os Karajá de Buridina certamente estão “virando brancos”, em alguma me- dida, mas isso não representa algo da ordem da “perda da cultura”. A proposta deste artigo é tratar etnograficamente essa complexa questão a partir do prisma do conhecimento indígena, ou da forma indígena de conhecimento. A história da aldeia é uma trajetória de conhecimento e experimentação do mundo dos “O pessoal da cidade”: o conhecimento do mundo dos brancos como experiência corporal entre os Karajá de Buridina Eduardo S. Nunes