Multimodalidades e transversalidades da arte_hackeamento Daniel Hora 1 Este artigo trata das concatenações entre arte e hackeamento e sua multiplicidade. A partir da contextualização do fenômeno no contexto da produção poética agenciada pelas mídias digitais, apresentamos um resumo das interpretações da abordagem hacker da tecnologia voltado às suas implicações políticas. Em seguida, analisamos exemplos das modalidades de articulação do hackeamento com projetos artísticos brasileiros e estrangeiros. Essas categorias são, por fim, integradas em uma análise do hibridismo técnico, da reprogramabilidade pela apropriação social e da transversalidade dos efeitos de resistência. Palavras-chave: arte e tecnologia, reprogramabilidade, hackeamento, contrapoder As confluências da arte com a abordagem hacker da tecnologia correspondem a uma multiplicidade de propostas poéticas com efeitos estéticos e políticos igualmente variáveis. Não obstante essa pluralidade, a recorrência de táticas de interferência e apropriação das mídias, de desvio e ativismo, fundamenta uma proposição teórica sobre a multimodalidade dos agenciamentos dessas práticas com outras herdadas do experimentalismo conceitualista e relacional da produção artística, que é cronologicamente concomitante à difusão das chamadas novas mídias e ao desenvolvimento da microinformática e das redes planetárias de comunicação, desde o final dos anos de 1960. A transversalidade dessas modalidades nos impede, no entanto, de adotá-las como classificações rígidas. Pelo contrário, a convergência flexível desses aspectos reflete o próprio hibridismo das mídias na era digital (SANTAELLA, 2003). Hibridismo que também se inclina a uma indiferenciação fenomenológica ou superposição das imagens artesanais e das máquinas de reprodução ou de síntese, que assumem valores que escapam à hierarquização baseada no suporte ou linguagem de produção e difusão (MACHADO, 1997; PLAZA; TAVARES, 1998). Em termos técnicos, essa dinâmica de misturas é amparada pela transcodificação, fator que permite, nas mídias digitas, a decodificação simultânea de um signo pela máquina, como linguagem numérica, e pela percepção, como imagem, por exemplo (MANOVICH, 2001). Essa perspectiva suscita o estudo sobre os efeitos sociais desse extravasamento para a cultura da programabilidade presente na condição algorítmica da tecnologia. Neste sentido, nos apoiamos ainda na conceituação da artemídia (MACHADO, 2007) como conjunto de práticas carregadas pelo valor adquirido com a fuga das rotas hegemônicas da tecnologia e da ciência, por meio da intervenção ou adoção autônoma de recursos da eletrônica, da informática e da engenharia genética. Trilha alternativa que deriva no desenvolvimento de novas interfaces, modelos de interação e códigos inovativos, conforme objetivos e critérios próprios das poéticas tecnológicas (GRAU, 2007). Mas que também conduz à experiência dissidente de laços entre o analógico e o numérico, o high-tech e o low-tech, o artificial e o natural, em uma produção de caráter recombinante (ROSAS, 2006) pensada como digitofagia ou tecnofagia. Ambos os termos visam à atualização para o contexto digital dos procedimentos de ressignificação de referências exógenas, característicos do movimento antropofágico brasileiro. Enquanto a digitofagia digere práticas e teorias da mídia tática de base europeia (ROSAS; VASCONCELOS, 2006), a tecnofagia trata os (falsos) consensos dos dispositivos da tecnociência como o Outro a ser submetido à fagia crítica (BEIGUELMAN, 2010a; 2010b). Nossa proposta de estudo qualitativo dessa produção visa a uma elaboração teórica em que o hackeamento comparece como conceito de orientação. Esta escolha tem a intenção de atender às demandas de um pensamento crítico sobre a programabilidade das novas mídias e as poéticas exploratórias, híbridas e heteróclitas que propõe oposições transversais ante as injunções do domínio do poder/conhecimento – campos que estão mutuamente implicados, conforme a 1 Aluno do curso de doutorado em Arte da Universidade de Brasília. Desde 2005, atua nas áreas de comunicação, políticas públicas e educação superior, com atividades dedicadas às artes e à cultura. Sua produção teórica aborda os agenciamentos entre a arte contemporânea e as apropriações da tecnologia, com base na filosofia da diferença, no conceito de hackeamento de McKenzie Wark e no entrelaçamento de questões estéticas e políticas. http://danielhora.wordpress.com