217 Comunicação e Sociedade, NÚMERO ESPECIAL, 2012, pp. 217-219 Metajornalismo – Quando o jornalismo é sujeito do próprio discurso. Madalena Oliveira, Grácio Editor: Coimbra, 2010, 300 pp. Rita Araújo* Num livro que resulta essencialmente da tese de doutoramento apresentada pela inves- tigadora em 2007, Madalena Oliveira dá-nos conta da possibilidade de o jornalismo reflectir sobre o próprio jornalismo. Nas palavras da autora, a obra “visa fundamentar a experiência metajornalística como uma prática adjuvante da cidadania” (Oliveira, 2010: 32). Referindo que em Portugal não há ainda uma tradição metajornalística, afirma que começa agora a formar-se a consciência de que é importante debater o papel dos média e os efeitos da informação (idem: 20). “Conquanto tenha inimigos ferozes dentro do próprio meio jornalístico, o metajornalismo terá, pelo menos, a virtude de desmistificar a profissão aos olhos do público” (idem: 30), refere Madalena Oliveira neste trabalho. Com prefácio de Moisés de Lemos Martins, a obra encontra-se dividida em três par- tes. A segunda parte – “Do triunfo do jornalismo ao embaraço dos jornalistas” –, que servirá de texto-âncora a esta crítica, compõe-se de três capítulos (pp. 115-195): “Um métier ferido pela escrita dos dias” (pp. 119-129), “O jornalismo como archote ou ainda a ideia de poder” (pp. 143-168) e “Da fragilidade de ser jornalista” (pp. 173-188). A autora discorre, assim, sobre o “desprestígio dos jornalistas”, encontrando, em parte, em alguma literatura da segunda metade do século XIX os primeiros sinais deste descrédito (idem: 117). Cita Karl Kraus e a sua visão derrotista da imprensa, em que o autor associa o jornalismo à impunidade e irresponsabilidade (idem: 118), sendo, no entanto, um dos escritores que mais se dedicou ao estudo e escrita do jornalismo. Madalena Oliveira refere que desde os primórdios da imprensa que o jornalismo é, de algum modo, mal visto pela sociedade; correspondendo a subleituras, os jornais foram, para muitos intelectuais, encarados como uma literatura menor dentro do mundo das letras. Foram vários os escritores que, ao longo dos anos, não pouparam críticas ao jor- nalismo e aos próprios jornalistas – críticas aos interesses que comandam os jornalistas, à pressão que exercem na sociedade, às conveniências e metamorfoses. A investigadora reporta mesmo relatos que se referem a um “jornalismo de metamorfoses, sem convic- ções, sem princípios e sem escrúpulos”. A autora é de opinião de que as preocupações de Kraus em relação ao futuro do jornalismo, na transição para o século XX, são muito actuais. Os média assistem a uma invasão da publicidade e à dependência económica e formação de impérios mediáticos, numa constante ameaça do pluralismo e da liberdade de imprensa. Na página 125, a * Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (rita.manso.araujo@gmail.com).