Revista Ética e Filosofia Política – Nº 13 – Volume 2 – Junho de 2011 70 A HERANÇA COLONIAL DAS “NOVAS” OPERAÇÕES DE PAZ DA ONU Marta Fernández Moreno (PUC-Rio) INTRODUÇÃO No contexto de exagerado otimismo que caracterizou o fim da Guerra Fria decorrente da superação das tensões ideológicas entre Estados Unidos e a União Soviética, a Organização das Nações Unidas (ONU) experimentou uma mudança na natureza das suas operações de paz, as quais passaram a estar cada vez mais comprometidas com a reconstrução de Estados fragmentados por guerras civis. Enquanto as missões de peacekeeping clássicas da ONU durante a Guerra Fria envolviam forças multinacionais levemente armadas que ajudavam a observar e a manter os acordos de cessar fogo entre os combatentes, no contexto do pós- Guerra Fria estas operações passaram a envolver um escopo muito mais vasto de atividades e atores. As atividades das “novas” operações de construção de Estados são abrangentes e variam de país para país, mas geralmente envolvem: desmobilização e integração dos antigos combatentes à sociedade civil, fornecimento de ajuda financeira, assistência humanitária, organização e fiscalização de eleições, repatriação de refugiados, reconstrução da estrutura física dos países, monitoramento dos direitos humanos, reestruturação do sistema judiciário e reforma legislativa. Além disso, estas operações contam com uma vasta gama de atores internacionais, tais como: organizações não- governamentais, instituições financeiras internacionais, agências de desenvolvimento, e organizações regionais e internacionais (Paris, 1997, 2002). Essas “novas” operações não estão voltadas apenas para impedir que os antigos inimigos reiniciem o conflito, mas, também, têm a pretensão de lidar com as causas profundas do mesmo, evitando sua retomada por meio da recriação das instituições centrais do Estado e da sociedade (Call; Cook, 2003). Nesse sentido, a paz que o processo de reconstrução de Estados se propõe a instaurar não é negativa, ou seja, caracterizada pela mera cessação das hostilidades físicas entre os combatentes, mas dirige a atenção para a erradicação das novas fontes de insegurança, tais como a econômica, a social e a ambiental, ao mesmo tempo em que ressalta a interdependência entre tais dimensões. Por conseguinte, estas operações partem de um conceito ampliado de segurança não